terça-feira, 12 de junho de 2018

O Amigo que lhe dei..





Carta de Maria Celeste endereçada a Afonso, em abril de 1731:
Meu pai, pensavas que estarias isento de participar de nossas dificuldades? Todos os que nos amam devem também participar de nossos sofrimentos... Os corações estão todos nas mãos de meu Deus. Que posso temer? Ele nada me negou ainda do que eu tenha desejado com o puro fim de sua honra e de sua glória. Ao saber dessas notícias (proibições feitas a Afonso) *, busquei a meu Esposo na oração, queixando-me a ele. Ele, consolando-me, me disse: “Não tenha medo. Ninguém poderá tirar de você o amigo que lhe deu” (S, p. 149)

O amigo que lhe dei.... É Afonso de Ligório. Maria Celeste o havia encontrado pela primeira vez no ano precedente, à época das visões e revelações sobre a fundação do novo Instituto. Era o tempo em que caíam sobre ela, violentamente, críticas e zombarias. Afonso é, então, e será sempre, seu apoio. Maria Celeste sabe disso e o declara em carta de 4 de outubro de 1730:

“Meu pai, eu sempre te encontro como companheiro em minhas pobres e frias orações e, unida a teu espírito, faço minhas comunhões e me serves de companhia. Mas meu prazer é maior ao ver que toda a nossa comunidade te lembra sempre com alegria. Que o Senhor abençoe para sempre nossa amizade, para sua glória e honra” (M, p. 21).

Maria Celeste confidencia a Afonso outra revelação do Senhor, que lhe dizia respeito. Ela a recebeu, como de costume, na hora da comunhão:

“Certa manhã, após a comunhão, vi com grande clareza os dons e bens que o Senhor havia concedido a tua alma: “Você receberá muitas graças minhas por meio dele, e ele, por sua vez, muitas graças receberá de minha misericórdia por meio de você. O sinal mais claro que dou a este meu servo, para que conheça que o amo, será que todas as almas, que estiverem sob seus cuidados ou ouvirem suas pregações, eu as cumularei de graças e com a salvação... Eu darei a ele os maiores dons de meu amor, que conduzem ao único fim supremo da união comigo”” (R, pp. 253-254, carta de fins de setembro ou princípios de outubro de 1731)

Em suas cartas, Afonso não esconde a amizade por Maria Celeste. Ela é das raras pessoas a quem trata com intimidade, como aliás, ela o faz também. Afonso a chama: “Celeste...minha Celeste... minha querida Celeste... minha irmã muito amada em Jesus Cristo e Maria...” Em resposta a uma carta em que Maria Celeste lhe havia escrito: “Em que minha alma pode tanto te interessar? ”, ele escreve: “Ah! Celeste, não me digas isso; é muita ingratidão, pois que a união de nossas almas em Cristo Jesus está tão avançada.... Não sabes então que o interesse de tua alma são os meus interesses? E isso, foi Deus quem fez, de forma alguma eu. A mim não me é possível não desejar para ti a perfeição total, da mesma forma que a desejo para mim. Tudo o que te escrevi, minha Celeste, eu o escrevi porque te amo em Jesus Cristo”
Afonso não era o único amigo de Maria Celeste. Bispos e padres oferecem-lhe sua amizade. Mas sobretudo os missionários da Congregação que Afonso havia fundado e da qual ela havia sido a inspiradora. Entre eles, distingue-se um irmão: Geraldo Majela. Quando ele ia a Foggia- e ia frequentemente-, narra Tannoia, seu biográfo, a primeira coisa que fazia era visitar madre Maria Celeste. Ela ficava feliz por falar com Geraldo, e Geraldo era feliz por gozar da amizade de Maria Celeste.
Geraldo estabeleceu com ela e com as irmãs da comunidade dela laços tão fortes de união a ponto de participar do desabrochar de numerosas vocações de monjas redentoristas e ser de muitas vocações o grande animador durante sua tão breve vida religiosa, que não durou nem seis anos.
Os seres humanos costumam ter amizades seletivas: são os colegas do mesmo sexo, da mesma idade, do mesmo bairro, da mesma profissão, dos mesmos estudos, com as mesmas convicções religiosas ou políticas. Jesus, ao contrário, tinha amizades sem fronteiras: as crianças, os doentes, os desequilibrados, os pagãos, os estrangeiros, os pobres, as mulheres... todos eram seus amigos.
Entre os santos houve muitas amizades célebres. Por exemplo: Escolástica e Bento; Clara e Francisco de Assis; Joana de Chantal e Francisco de Sales; Luísa de Marillac e Vicente de Paulo. Da mesma forma, Maria Celeste, Afonso e Geraldo. E os três eram, incontestavelmente, amigos de Jesus eucarístico. A eucaristia, a visita ao Santíssimo Sacramento marcaram sua vida cristã desde a infância. (Cf. Orar 15 dias com Santo Afonso e Orar 15 dias com São Geraldo, Aparecida, E. Santuário)
Assim, para os três, ao lado de seus numerosos amigos da terra, havia este grande Amigo do céu, o Amigo por excelência, Jesus, com quem se entretinham todos os dias, especialmente na hora da comunhão, e a quem Maria Celeste podia falar de seu reconhecimento:

“Ó Rei de meu coração, como é doce tua voz aos meus ouvidos. Este nome de amiga que me dás faz-me morrer de doçura. Tenho a impressão de que teu coração e o meu não tem senão uma mesma respiração e um mesmo amor. Sinto-me cumulada de teus bens, num abandono total de todo o meu ser em ti” (NN, Huitème jour).

E nós, hoje?

Temos nós amizades estreitas, limitadas, ou amizades abertas, sem fronteiras? Estamos prontos, como o Senhor, a acolher em nosso coração aqueles e aquelas que encontraremos no dia de hoje?
Trazemos nossos amigos em nossos corações? Sem esquecer os outros, todos os outros?
Estamos conscientes, como Maria Celeste, de que o Senhor escolheu ser nosso maior amigo? Estamos felizes por essa incrível amizade do Senhor por nós?
Quando rezamos, será que nos contentamos em recitar belas fórmulas ou temos o hábito de falar com Deus “como um amigo fala com seu amigo”, como Moisés (cf. Êx 33, 11), como Maria Celeste e inumeráveis crentes ao longo da história?

Oremos com Maria Celeste

Meu Bem-amado Senhor e Esposo,
Tu és meu único e particular amigo,
Oh! Sinto que não poderia viver
Nem uma hora, nem mesmo um instante sem ti.
Parece-me que meu espírito não se alegra
Senão quando pensa em ti.
Cada dia, cada hora que passa
Me aproxima do momento
Em que terei a alegria infinita e eterna
De ver teu rosto!
(F-M, n. 138, Entretiens IX)

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A mãe de uma multidão...



Certa manhã, após a comunhão.... com minha alma toda absorta em silêncio, o Senhor me disse: “Desejo que você seja a mãe de uma multidão de almas, que quero salvar por seu intermédio...”(L, cap. XIV)

Para Maria Celeste, a eucaristia não é só o sacramento pelo qual Jesus, como no Lava-pés, lhe oferece o perdão de seus pecados: “Eu lavarei e purificarei você de todas as suas faltas”. É, sobretudo, o sacramento dos esponsais com o Cristo, de sua união à paixão e ressurreição do Salvador, como também o sacramento do Pentecostes, isto é, da fecundidade apostólica, da maternidade espiritual. “Quero que você seja a mãe de uma multidão. ” Essas palavras de Jesus após a comunhão marcaram-na por toda sua vida. Um século depois, Teresa do Menino Jesus expressará semelhante convicção na sua autobiografia (história de uma alma): “ser tua esposa, ó Jesus... ser, pela minha união contigo, a mãe das almas”(oeuvres completes, Cerf, 1922, p. 224).

Em seu diálogo com Maria Celeste, Cristo assegura-lhe que ela colaborará nessa obra do Salvador, que será um sucesso: “uma multidão! ” Ela se sente animada, mas sabe muito bem que será doloroso esse parto. Doloroso, mas fecundo, pois não será apenas o resultado de seus esforços, mas também o fruto do trabalho apostólico de sua comunidade, da Igreja, e sobretudo do próprio Senhor, que está presente nela e com ela trabalha.
Jesus, uma manhã, convida-a a se deixar abrasar pelo fogo do amor que o consome por todas as almas que ele quer salvar:

“Esta manhã, desejei você de maneira especial em meu coração. Esperei-a com impaciência, para que, em mim, você espose todas as almas, aquelas que fazem parte da Igreja e aquelas que ainda não estão no meu rebanho. Quero que tenha por elas o mesmo amor pelo qual eu as amo apaixonadamente. Quando estava no mundo, eu pensava mais nelas que em mim mesmo. Assim, não pense mais em você, mas na salvação dessas almas que eu tanto amo” (L, Segundo Diálogo)

Evocando a imagem do golfinho, Jesus insiste nesse ponto:

“Você é para mim como o golfinho, esse amigo do pescador que o acompanha sempre e atrai outros peixes para suas redes. Também você, amiga dileta, esteja sempre comigo com amorosa simpatia e conduza as almas para as redes da minha graça” (L, Segundo Diálogo).

Maria Celeste não era senão um com seu Senhor. Sua comunhão não se separa de sua missão. E sua missão pessoal é a fundação de um novo instituto religioso. Essa fundação aconteceu em Scala, a 13 de maio de 1731, num dia de Pentecostes. Depois do fracasso de Scala, é numa segunda-feira de Pentecostes, em 25 de maio de 1733, que começa uma nova etapa dessa fundação; e mais uma vez no dia de Pentecostes só em 1738, em Foggia, Maria Celeste conhecerá a felicidade de uma fundação definitiva.
O lema escolhido, desde a origem, para os redentoristas e as redentoristas: “Copiosa apud eum redemptio- Com ele (Jesus) é abundante a redenção”, enaltece o arroubo missionário e a fé no futuro. Dessa forma, numa época em que se pregava frequentemente “o pequeno número dos eleitos”, Maria Celeste e Afonso estavam convencidos de que a salvação trazida por Jesus não estava fadada a um fracasso, mas a um sucesso extraordinário. Inimaginável.

E nós, hoje?

Quando nós rezamos, e sobretudo quando participamos da eucaristia, somos conscientes de que nossa oração é a principal fonte de nosso apostolado? É por isso que é preciso “pedir ao Senhor da messe”(cf. Mt 9, 30; Lc 10, 2) para que haja operários e operárias para a colheita.
Temos perfeita compreensão de que, se somos cristãos, não é para buscar a nossa salvação, mas para primeiro salvar os homens e mulheres de nosso tempo, na comunidade da Igreja, isso é, com Jesus Salvador?
Quando compreenderemos que é o Senhor o principal obreiro de nosso apostolado? E que nós, nós não somos senão a terra que recebe a semente, mas uma terra de acolhimento, indispensável?
A nós compete, pois, aceitar servir, cooperar generosamente, alegremente, como Maria Celeste, que foi a “a mãe de uma multidão de almas”, para seu tempo e para o futuro.


𝓞𝓻𝓮𝓶𝓸𝓼 𝓬𝓸𝓶 𝓜𝓪𝓻𝓲𝓪 𝓒𝓮𝓵𝓮𝓼𝓽𝓮

Ò divino Pai...
Tua palavra,
Como uma flecha de fogo,
Transpassa minha alma
Para fazê-la desfalecer todos os dias de minha vida
Em teu divino amor!
Tu me dizes que me queres como ardente
Tocha
A brilhar sempre diante de ti
Para iluminar muitas almas .
Como, porém, eu poderia,
Sendo que para mim mesma não sou senão
Trevas?
Serei tocha e até o sol,
Se permaneceres sempre unido a meu coração.
Eu te suplico,
Por tua divina misericórdia,
Que assim seja (ES, Huitième jour)


sexta-feira, 11 de maio de 2018

𝕽𝖊𝖈𝖊𝖇𝖆 𝖒𝖊𝖚 𝖈𝖔𝖗𝖆çã𝖔 ...







Receba no seu o meu coração, para sempre o amar como a seu próprio coração, para ali ter guardadas todas as almas que são minhas pelos laços da caridade. Que especialmente as almas desta comunidade em que você vive sejam suas queridas esposas. Ame-as, tome a peito seu bem espiritual. Dou-as a você, minha bem-amada, a elas que são minhas e suas esposas. De hoje em diante, você as amará em mim e, a mim, nelas (L, Segundo Diálogo)

Receba meu coração... Nessa época, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus desenvolvia-se sobretudo na Europa, um pouco em reação á indiferença do jansenismo e à dureza do rigorismo. Essa devoção influenciou Maria Celeste. Seu amigo afonso foi um ardente promotor dela: no seu livrinho “Visitas ao Santíssimo Sacramento”(que ainda em vida de Afonso alcançará mais de quarenta edições), ele dedica várias “visitas” ao Sagrado Coração. Esse livro esteve nas mãos de Maria Celeste. Para Afonso, essa devoção popular não é um convite a declarações sentimentais, e sim à descoberta dessa realidade comovedora, especialmente na hora da comunhão: entrar em comunhão com Deus Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Maria Celeste fez a experiência disso de maneira extraordinária, como o testemunha esta conversa com o senhor:

Eu me senti que colocavas teu coração no meu peito, e que o meu coração se derretia como cera no teu. Eu ouvia tão docemente os batimentos de teu coração que me desfazia de amor... Língua humana nenhuma o saberá descrever. Ouvia ali baterem os corações dos que te amam, e de teu divino coração estavam prisioneiras todas as almas criadas e remidas. Com elas, estava meu coração no teu (L, Segundo Diálogo).

Com renovada alegria, Maria Celeste declara então:

Tú és minha alegria, ó coração daquele que me ama! Eis que, no meu peito, no lugar do meu coração, encontro o teu. Como está feliz minha alma por essa troca, ó meu Rei! Exulto de amor por isso (L, Segundo Diálogo)

Jesus prossegue suas confidências a esse respeito, lembrando-lhe que o seu coração é traspassado, um coração aberto, um coração acolhedor de todos aqueles e aquelas que aceitam ser amados por ele:

Meu divino coração é seu centro: veja que imenso bem há para você nessa morada. Não deixe esta cela preparada para você. Com a cruz escancarei a porta para você, e desde então você pôde entrar em meu coração. Aqui terá toda a felicidade do tempo e da eternidade. Nas angústias desta vida, aqui encontrará paz, nas aflições e perseguições, refúgio, e alívio nas tentações e desolações. Aqui você encontrará os meus e os seus amigos, sempre que quiser consolar-se e gozar de sua companhia e da doce convivência de meus santos, sem intromissão de vozes estranhas, com aquele repouso que não se pode encontrar no mundo nem nos bens desta terra. No meu coração você encontrará aquele bem infinito que a inteligência humana não é capaz de conceber (L, Segundo Diálogo).

Depois de convidar Maria Celeste a colocar o coração dele no centro de sua vida, Jesus revela-lhe um segredo: seu coração, transbordante de amor; trespassado por amor, é o coração de Deus Pai:

Ensinando você a ser mansa e humilde de coração, eu quis revelar um segredo muito profundo: sou eu o coração do Pai, que me enviou ao mundo para comunicar às suas criaturas a verdade sobre ele mesmo. Recorde o que eu disse nos meus evangelhos: “Tudo o que ouvi do Pai, eu vos dei a conhecer”(Jo 15, 15). Isso significa que, nos evangelhos, estão contidos todos os mistérios de minha divindade (L, Solilóquio Diálogo).

De fato, o coração de Jesus é a fonte de todo amor, de toda vida, dessa vida divina em que se inflama e se consome Maria Celeste. Entretanto, o amor do coração de Jesus não é um convite a se trancar num amor só a dois, mas a se abrir largamente num amor sem fronteiras, principalmente com as irmãs de sua comunidade:

Você olhará para o próximo com o mesmo amor com que eu olhava para meus apóstolos e discípulos. Com o mesmo olhar de amor, verá as companheiras com quem vive em comunidade. Terá diante de suas fraquezas a mesma piedade e compaixão que eu. Você as consolará em suas angustias com a mesma caridade minha. E, com a mesma doçura minha, a elas falará das coisas do Reino eterno. É em união com os meus sofrimentos que você suportará os altos e baixos de sua natureza e de seu caráter. Jamais use com elas de palavras violentas, em qualquer situação que seja.... Que suas palavras sejam sempre doces e amorosas! (F-M, n. 132, Entretiens IX)

O que é mais que evidente é que Maria Celeste é apaixonada por Jesus. Ela descobriu um Deus que pensa nela. Pessoalmente. Um Deus que lhe perdoa todos os pecados. Definitivamente. Um Deus que a ama. Apaixonadamente, a ponto de ter ciúmes dela, no sentido bíblico do termo, quer dizer: amante sem medida, que respeita, todavia, a liberdade do outro:

Deus eterno e de infinita caridade, quem pode contar as misericórdias sem fim que tiveste para com esta miserável criatura, que tantas vezes te ofendeu? E tu, amor de minha alma, tu jamais deixaste de amá-la, de lhe conceder teus benefícios e de estar junto dela, para que não se afastasse de ti, fonte de água viva. Com ciúmes velavas por ela e foste uma luz para meus pés, para que não errasse o caminho.... Não havia hora nem tempo algum em que não te via, com um olhar puro e espiritual, montando guarda junto de mim. Por isso, inflamava-se minha vontade pela tão encantadora visão de tua presença, porque me olhavas sempre com dulcíssimo amor e olhos serenos e amorosos... Convidando-me a te amar, dirigias-te a mim com doces palavras, como por exemplo: “Eu sou ciumento de seu coração” (L, cap. VI)

A essa declaração de amor do Senhor, Maria Celeste responde com também inflamada declaração:

Não consigo me convencer de que outro coração te queira maior bem do que eu! Todos os meus suspiros, minhas respirações todas voam para ti, para te ferir de amor, como tu me feres com teu amor. Ó joia de meu coração... meu Bem-amado perfeitíssimo, como me és caro e amável! Jamais saberia explicar o que tu és. Com razão, tantos corações amorosos morreram de puro amor por ti, sobretudo o coração de tua querida Mãe, que, mais que qualquer outra criatura, possuía teus divinos conhecimentos! (L, Solilóquio Diálogo).


E nós, hoje?

Estamos convencidos de que somos amados pessoalmente pelo Senhor, ao qual dirigimos nossa oração? Antes da criação do mundo, ele já pensava em nós e nos amava. Nem hoje ninguém nos ama tanto quanto ele. Hoje e sempre ninguém quer tanto quanto ele nosso bem. Ora, não há ninguém mais humilde que Deus. Ele nos respeita, não nos obriga a nada. Ele quer o nosso bem e, com nossa livre colaboração, o bem de todos. Será que cremos nesse amor?
Antes: pensamos nós nesse amor, nesse coração que pulsa junto do nosso e que gostaria de nos arrebatar na espiral de seu amor?
Temos verdadeiramente o cuidado de acolher esse amor e de partilhá-lo com os outros? Em família, em comunidade, em Igreja?
Preocupamo-nos com o bem dos outros? Com seu bem material e seu bem espiritual?
  

Oremos com Maria Celeste

Querido Bem de minha alma,
fogo devorador e veemente experiência,
ao receber teu coração, que novamente me
deste,
Posso dizer, em toda a verdade,
que agora és tu o meu coração,
ó meu bem.
E como te contentas com tão pobre morada,
ó meu Senhor?
Outra coisa não posso fazer
senão me entregar a ti
numa entrega irrevogável (L, Sétimo Diálogo).



terça-feira, 10 de abril de 2018

Benção e inauguração do Novo mosteiro Redentorista de Huambo

Com alegria postamos algumas fotos da benção e inauguração do Novo Mosteiro de Huambo na Angola. Essa nova fundação só foi possível, graças a generosidade da comunidade de Diabó e de Kiri de Burkina Fasso. É importante destacar que dessa fundação, umas das irmãs é francesa e ajudou na fundação da Ordem em solo Africano. Redemos graças a Deus por tamanha graça e pedimos que Ele envie muitas  santas vocações.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

O nome de Jesus...


Eu me sentia com o coração tomado por uma ferida divina. Sobretudo quando ouvia dentro de mim e me sentia envolta por um recolhimento interior que me fazia fugir de qualquer conversa... E tu, meu amor, amante Verbo, deliciosamente me nutrias com poucas e breves palavras de amor, fazendo-me sentir tua presença em meu coração, do qual fizeste tua morada (L, cap. X)



O nome de Jesus toca por inteiro o coração de Maria Celeste. Compreende-se melhor isso quando se recorda a etimologia dessa palavra: “Jesus” vem da palavra hebraica “Yeshouah”, que significa: “Javé salva”, ou simplificando: “Salvador”. Assim é que, para traduzir essa palavra, pode-se escolher entre dois termos: “Salvador” ou “Jesus”. “Jesus” é a tradução sonora de “Yeshouah”, enquanto “Salvador” é seu significado. Descobre-se a afeição de Maria Celeste por essa palavra, quando se olha para o primeiro nome dado por ela a seu Instituto: Ordem do Santíssimo Salvador e Congregação do Santíssimo Salvador.
“Salvador”, palavra cheia de esperança. Foi o nome escolhido pelo Pai para seu Filho, o Verbo feito carne no seio da Virgem Maria. O anjo enviado por Deus revela a José: “Não temas receber Maria, tua esposa: o menino gerado vem do Espírito Santo; ela dará ao mundo um filho, a quem darás o nome de Jesus”(Mt 1, 20-21).
Eis porque, aos 20 de janeiro de 1732, na festa do Nome de Jesus, Maria Celeste, na hora da comunhão, deixa explodir sua alegria:

Neste dia em que a Igreja celebra teu santo e adorável nome, concedeste-me, ó meu Jesus, tão grande efusão de amor que me parecia estar minha alma inteiramente consumida por esse nome tão belo, tão doce, tão caro, tão agradável, tão grande, tão amável, tão admirável, tão divino...(L, Solilóquio Diálogo).

No magnificat, a Virgem Maria canta, não em latim nem em grego, mas na língua irmã do hebraico, o aramaico: “minha alma engradece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu ‘Yeshouah’, isto é, meu ‘salvador’, meu ‘Jesus’”. Pode-se, pois, traduzir: “Exulta meu espírito em Deus, meu Jesus”. E então se compreende a emoção de Maria Celeste e de muitos místicos, quando pronunciam ou ouvem esse nome Jesus. Para todos eles, esse nome não evoca apenas uma ideia. Menos ainda uma imagem, mas uma pessoa viva, presente, seu melhor amigo, o Amigo divino, o próprio Jesus, o Ressuscitado que leva as marcas dos cravos e que se dirige a cada um de nós como a Maria Madalena na manhã de Páscoa:

“Acontece muitas vezes a uma alma, ocupada em afazeres materiais, ou mesmo lendo ou rezando, ouvir por acaso pronunciar o nome de Jesus. Ela se sente, de repente, como que transpassada por um dardo amoroso tão forte que lhe deixa suspensa por um tempo a respiração, de forma que não é possível descobrir o que é dor e o que é amor, ao mesmo tempo. Cehga ao mais profundo das entranhas, num movimento instantâneo, e inflama tão vivamente em todo o ser o fogo da caridade, a ponto de parecer que tudo é dor e amor dulcíssimo. A alma então recolhe e se concentra inteira em Deus, e permanece numa oração a que se pode chamar de imersão em Deus” (L, Degrau Oitavo)

Dessa maneira, o nome de Jesus leva Maria Celeste não só ao encontro de Jesus, mas ao encontro do Pai de Jesus, na luz do Espírito Santo.

E nós, hoje?

Na escola de Maria Celeste, compreendemos enfim que para orar é preciso ser dois: aquele que vê e aquele que se deixa ver, aquele que ouve e aquele que é ouvido, aquele que ama e aquele que é amado?
Como pronunciamos o nome de Jesus? É uma formula maquinal, usada por hábito? Ou o nome de um amigo que está ao nosso lado e que, ao preço da própria vida, tudo faz para nos salvar, perdoando-nos e nos chamando a cooperar com ele na salvação do mundo? Nome que nos transforma e nos convida, agora, a partilhar a ceia da amizade na eucaristia, à espera do festim do Reino?
Procuramos rezar, com Maria, este verso do Magnificat: “Exulta meu espírito em Deus, meu Jesus”?

Oremos com Maria Celeste

Ó nome santíssimo de meu Jesus que eu adoro...
Nome tão belo, tão doce, tão caro,
Tão agradável, tão grande, tão rico, tão amável,
Tão admirável, tão divino!
Deixa-me, pois, agora exprimir e exalar
O amor de meu coração para contigo,
Com toda liberdade e sem reserva,
Pois eu falo contigo,
A ti que és todo o meu amor,
Minha vida, meu coração e minha própria alma.
Dize-me agora, meu Bem-amado,
Porque fazes assim derreter meu coração?
Meu coração está tomado de fogo.
Só de ouvir pronunciar teu nime,
Dir-se-ia que ele está mil vezes traspassado
E ferido,
Como por uma flecha,
Por esse nome tão belo! (F-M, n. 26, Entretiens IX)