terça-feira, 10 de abril de 2018

Benção e inauguração do Novo mosteiro Redentorista de Huambo

Com alegria postamos algumas fotos da benção e inauguração do Novo Mosteiro de Huambo na Angola. Essa nova fundação só foi possível, graças a generosidade da comunidade de Diabó e de Kiri de Burkina Fasso. É importante destacar que dessa fundação, umas das irmãs é francesa e ajudou na fundação da Ordem em solo Africano. Redemos graças a Deus por tamanha graça e pedimos que Ele envie muitas  santas vocações.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

O nome de Jesus...


Eu me sentia com o coração tomado por uma ferida divina. Sobretudo quando ouvia dentro de mim e me sentia envolta por um recolhimento interior que me fazia fugir de qualquer conversa... E tu, meu amor, amante Verbo, deliciosamente me nutrias com poucas e breves palavras de amor, fazendo-me sentir tua presença em meu coração, do qual fizeste tua morada (L, cap. X)



O nome de Jesus toca por inteiro o coração de Maria Celeste. Compreende-se melhor isso quando se recorda a etimologia dessa palavra: “Jesus” vem da palavra hebraica “Yeshouah”, que significa: “Javé salva”, ou simplificando: “Salvador”. Assim é que, para traduzir essa palavra, pode-se escolher entre dois termos: “Salvador” ou “Jesus”. “Jesus” é a tradução sonora de “Yeshouah”, enquanto “Salvador” é seu significado. Descobre-se a afeição de Maria Celeste por essa palavra, quando se olha para o primeiro nome dado por ela a seu Instituto: Ordem do Santíssimo Salvador e Congregação do Santíssimo Salvador.
“Salvador”, palavra cheia de esperança. Foi o nome escolhido pelo Pai para seu Filho, o Verbo feito carne no seio da Virgem Maria. O anjo enviado por Deus revela a José: “Não temas receber Maria, tua esposa: o menino gerado vem do Espírito Santo; ela dará ao mundo um filho, a quem darás o nome de Jesus”(Mt 1, 20-21).
Eis porque, aos 20 de janeiro de 1732, na festa do Nome de Jesus, Maria Celeste, na hora da comunhão, deixa explodir sua alegria:

Neste dia em que a Igreja celebra teu santo e adorável nome, concedeste-me, ó meu Jesus, tão grande efusão de amor que me parecia estar minha alma inteiramente consumida por esse nome tão belo, tão doce, tão caro, tão agradável, tão grande, tão amável, tão admirável, tão divino...(L, Solilóquio Diálogo).

No magnificat, a Virgem Maria canta, não em latim nem em grego, mas na língua irmã do hebraico, o aramaico: “minha alma engradece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu ‘Yeshouah’, isto é, meu ‘salvador’, meu ‘Jesus’”. Pode-se, pois, traduzir: “Exulta meu espírito em Deus, meu Jesus”. E então se compreende a emoção de Maria Celeste e de muitos místicos, quando pronunciam ou ouvem esse nome Jesus. Para todos eles, esse nome não evoca apenas uma ideia. Menos ainda uma imagem, mas uma pessoa viva, presente, seu melhor amigo, o Amigo divino, o próprio Jesus, o Ressuscitado que leva as marcas dos cravos e que se dirige a cada um de nós como a Maria Madalena na manhã de Páscoa:

“Acontece muitas vezes a uma alma, ocupada em afazeres materiais, ou mesmo lendo ou rezando, ouvir por acaso pronunciar o nome de Jesus. Ela se sente, de repente, como que transpassada por um dardo amoroso tão forte que lhe deixa suspensa por um tempo a respiração, de forma que não é possível descobrir o que é dor e o que é amor, ao mesmo tempo. Cehga ao mais profundo das entranhas, num movimento instantâneo, e inflama tão vivamente em todo o ser o fogo da caridade, a ponto de parecer que tudo é dor e amor dulcíssimo. A alma então recolhe e se concentra inteira em Deus, e permanece numa oração a que se pode chamar de imersão em Deus” (L, Degrau Oitavo)

Dessa maneira, o nome de Jesus leva Maria Celeste não só ao encontro de Jesus, mas ao encontro do Pai de Jesus, na luz do Espírito Santo.

E nós, hoje?

Na escola de Maria Celeste, compreendemos enfim que para orar é preciso ser dois: aquele que vê e aquele que se deixa ver, aquele que ouve e aquele que é ouvido, aquele que ama e aquele que é amado?
Como pronunciamos o nome de Jesus? É uma formula maquinal, usada por hábito? Ou o nome de um amigo que está ao nosso lado e que, ao preço da própria vida, tudo faz para nos salvar, perdoando-nos e nos chamando a cooperar com ele na salvação do mundo? Nome que nos transforma e nos convida, agora, a partilhar a ceia da amizade na eucaristia, à espera do festim do Reino?
Procuramos rezar, com Maria, este verso do Magnificat: “Exulta meu espírito em Deus, meu Jesus”?

Oremos com Maria Celeste

Ó nome santíssimo de meu Jesus que eu adoro...
Nome tão belo, tão doce, tão caro,
Tão agradável, tão grande, tão rico, tão amável,
Tão admirável, tão divino!
Deixa-me, pois, agora exprimir e exalar
O amor de meu coração para contigo,
Com toda liberdade e sem reserva,
Pois eu falo contigo,
A ti que és todo o meu amor,
Minha vida, meu coração e minha própria alma.
Dize-me agora, meu Bem-amado,
Porque fazes assim derreter meu coração?
Meu coração está tomado de fogo.
Só de ouvir pronunciar teu nime,
Dir-se-ia que ele está mil vezes traspassado
E ferido,
Como por uma flecha,
Por esse nome tão belo! (F-M, n. 26, Entretiens IX)


sábado, 3 de março de 2018

Trindade Bem-Aventurada...


A alma entra no Verbo-Deus, e, ao mesmo tempo, todas as suas potências entram na substância pura da Trindade Bem-aventurada. É ali que ela se encontra entre o Pai e o Filho, no sopro do Espírito Santo, e perde todo seu conhecimento criado. Num ato de pura verdade, ela arde no fogo da caridade, que é chama de vida eterna...
Nesse estado, outra coisa não se faz senão amar com aquele amor com o qual o Pai ama o Verbo no Espírito Santo, e com o qual o verbo ama seu divino Pai em sua infinita felicidade (L, Degrau Décimo).





Para Maria Celeste, Deus é fogo. Mas fogo semelhante à sarça ardente vista por Moisés, fogo que queima eternamente sem se consumir. (cf. Êx 3,2)Assim, a Trindade arde no fogo do amor, fogo de bondade e de alegria, que é eterno e fonte de bem para todos os que crêem nesse Deus-amor abrasado do desejo de se unir para sempre a cada uma e cada um de nós:


Ah! Meu Senhor, que língua mortal pode explicar o bem que realiza numa alma cristã o estado de verdadeira união com Deus neste divino Sacramento do altar. pelo qual obtém a transformação em Deus e recebe esse puro sopro divino que existe entre o Pai e o Verbo, seu Filho, com o Espírito Santo...Nutrindo-se da carne do homem-Deus, a alma-esposa vem a participar, mediante a união hipostática que une Jesus ao Verbo, da admirável união com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que goza a alma santíssima de Jesus, do qual todos somos membros. União real esta, que se apóia nas palavras do próprio Jesus: "Quem come de minha carne vive por mim!(Jo 6,57)(Vm, n. 23, p. 5, Jardin intérieur, 4 juin).







Quem come de minha carne vive por mim!... Maria Celeste não cessa de aprofundar essa palavra de Jesus. Palavra extraordinária. Ela lhe queima o coração. E, maravilhada, descobre na hora da comunhão os arroubos de amor e de alegria que unem as três Pessoas da Bem-aventurada Trindade, entre elas, e que a unem a elas por meio de Jesus:


Quando te contemplo, meu Jesus, em ti vejo brilhar todas as belezas e todos os divinos atributos do Ser substancial, a Santíssima Trindade. Ali encontro a felicidade eterna que torna o meu Deus bem-aventurado em si mesmo; ali encontro o amor com o qual amas todas as criaturas em infinito arrebatamento; ali encontro todos os corações amantes que existiram, existem e que existirão; ali encontro todos os bem-aventurados do paraíso e todos os corações que em ti repousam em uma vida de amor que os cumula de felicidade. Ali encontro toda a criação do céu e da terra com a multidão das espécies criadas; ali encontro a santidade dos santos...tudo isso o Pai depositou em ti, meu Amor, para que sejas de tudo o único distribuidor. Em tua Majestade, encontro preservados todos os seres, em perfeita ordem. Todos esses bens estão depositados na Arca de tua santa humanidade e nela transparecem, como por um cristal puríssimo, todos os tesouros e belezas com os quais, por uma graça superabundante, essa puríssima humanidade foi enriquecida pelo Pai. Ela não tem nódoa nem mancha, e eu a comparo a um límpido cristal...Meu coração está arrebatado de amor por ela e não pode se recusar a amar esse Sol na Arca e essa Arca que envolve o Sol (L, Solilóquio Diálogo)

Nada de sábias considerações sobre o mistério da Trindade. Maria Celeste delicia-se com o amor dos três. Para ela, o Cristo está sempre no centro de suas atenções, mas tem presente ao mesmo tempo sua humanidade e sua divindade, sem jamais as separar. A humanidade do Cristo é “a porta aberta para entrar em Deus”. Disso fazia inesquecível experiência na hora da comunhão:

As três pessoas divinas mostraram-se a mim em meu espírito. Deus Pai me recebia como sua filha para sempre e me dava uma veste muito preciosa, que me recobria toda inteira. Essa veste era sua divina vontade, com a qual ele quer que eu fique sempre revestida, como verdadeira filha sua.
Depois o Verbo, o Deus de Amor, com doces e amorosas palavras, declarou-me sua esposa para sempre e me entregou uma belíssima aliança, como também uma pequena cruz de ouro, toda incrustada de pedras preciosas e de diamantes, muito adornada e muito bela, mais que se consiga dizer...Essa aliança significava a fidelidade que, em todas as minhas ações, até a morte eu lhe devo.
A cruz tinha três grandes diamantes e era de ouro tão brilhante que espargia ofuscantes raios de luz. Algumas pedras de rubi também espargiam raios e faiscavam como fogo. Era o Espírito Santo que me dava esses adereços e que realizava tudo isso (F-M, n. 6, entretiens IX)

Ao longo de toda a vida, Maria Celeste viveu uma progressiva interiorização na Bem-aventurada Trindade, porque o Deus que ela ama apaixonadamente não é um vago “Bom Deus” solitário, o “Celibatário dos mundos”, mas um Deus “comunhão de amor” entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Ela não so admira essa comunhão de amor, mas a compartilha. E isso se realiza sobretudo na hora da comunhão, momento em que, um dia, ouve o Pai lhe dizer: “Eu criei você de minha substância, por um amor de eleição”. Eis como ela se exprime:
“Estas palavras, ó divino Pai, tu me disseste hoje, após a santa comunhão. Foi quando vi minha vida no teu Verbo, que é tua, e minha substância eterna de felicidade e amor. E acrescentaste esta outra palavra substancial: ” Eu sou teu céu! ”” (Es, huitième jour)

E nós hoje?

Será que a Bem-aventurada Trindade é para nós um problema intelectual, objeto de especulação, ou o maravilhoso encontro, especialmente na hora da eucaristia, com o Pai e o Filho, no Espírito Santo, no seio de sua comunhão de amor?
Estamos atentos em nos deixar conduzir pelo Cristo a esse encontro, conscientes de que ele está presente, não ao nosso lado, mas dentro de nós?
Estamos igualmente conscientes de que nos oferece partilhar com ele a verdadeira bondade, a bondade de Deus, bondade que jamais se apaga?
Estamos prontos a nos enveredar pelo caminho de amor traçado por Jesus: o caminho de páscoa que, pela morte na cruz, nos faz passar à alegria e à glória na vida eterna, em comunhão com Deus Pai, pelo Cristo, no Espírito Santo?


Oremos com Maria Celeste

Ó meu amor,
 eu me perco nesse imenso oceano de teu
amor infinito.
Ó pai de sinceridade e de verdade,
Supersubstancial e divino,
Por teu poder tu me transformas em Deus vivo.
E por tua pureza transformas minha carne maculada
Na pureza de tua carne imaculada.
Não somente a purificas do pecado,
Mas a nutres com tua vida de pureza.
De todos os grãos dispersos,
Que são as almas fiéis,
Tu fazes um só Pão
Assado ao fogo de tua divina caridade,
Na tua humanidade...
Em união de amor,
Eu vivo a vida de meu Deus
Por ti, que és a vida eterna

 (F-M, n. 76, Exercice d’amour pour chaque jour)


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Quando um Passarinho Voa...





Observe...Quando um passarinho voa, à medida que se eleva, ele entra num ar mais puro e está ao abrigo de predadores. Mais se eleva, mais fica em segurança. Assim a alma Cristã...Suba, pois, o quanto possível, para o ar puro e calmo de meu divino Ser. Ali gozará de delicioso silêncio e de grande segurança (L, Quarto Diálogo).

Maria Celeste não almeja a uma espiritualidade pela metade. Quando escreve a Regra para o Novo Instituto que o Senhor quer fundar, com ela e com seu amigo Afonso, ela convida suas Monjas não a se prenderem escrupulosamente a pequenas devoções ou a recitarem longas fórmulas prontas de oração, mas a se elevarem à contemplação do Deus de Jesus Cristo, Deus Pai em comunhão com o Filho, no Espírito Santo, a Santíssima Trindade. E mais: desdea primeira página, Maria Celeste evoca o projeto de Deus para o mundo, o "plano do Pai":

Eu tive o ardente desejo de dar ao mundo meu Espírito e de comunicá-lo a minhas criaturas dotadas de razão, para com elas e nelas viver até o fim dos tempos. No meu imenso amor, dei-lhes meu Filho único, e por ele lhes comuniquei  meu divino Espírito Consolador, para divinizá-los na vida, na justiça e na verdade, e a todos guardar em meu afeto, naquele que é o Filho do meu amor, o próprio Verbo (F-m, n. 1, Règle, but et Idée).


Eu lhes dei....comuniquei-lhes meu Espírito...para divinizá-los... O Deus de Maria Celeste é um Deus que toma a iniciativa. Ele é quem doa primeiro. Por quê? Para divinizar os seres humanos.
Este "plano do Pai" é uma idéia central em Maria Celeste. Ela segue o pensamento dos Padres da Igreja, como Irineu e Inácio de Antioquia, que repetiam: "Deus se fez homem, para que o homem pudesse tornar-se Deus". Por isso, sua espiritualidade é profundamente trinitária, ao mesmo tempo em que se mantém centrada no Cristo e seu mistério pascal. É, de fato, a partir do Cristo, Deus feito homem, morto no extremo de seu amor e ressuscitado, que o verdadeiro Deus se deixou ver. E ela volta frequentemente a esse tema em seus escritos:

Ò Amor, Verbo, Deus de meu coração! Sabendo que és a vida de todas as coisas que existem, como poderia eu explicar esse bem? És o ser e a vida de bondade no céu para todos os justos e todos os espíritos puríssimos do além, uma vez que é em ti que eles têm o existir, a vida e a luz da glória...
Olho o céu e contemplo as estrelas: és tu seu esplendor e sua beleza. É em ti que elas têm a vida e continuam a existir.
Olho o sol e a lua e vejo que és tu seu brilho e sua vida. Olho o mar: o bater das ondas, com seu brado sem palavras, ressoa como alegres vozes que ouço interiormente, pois que aí te manifestas, Verbo-Deus amor, como vida, sabedoria e seu ser.
Olho a terra, as plantas e as flores e as frutas...Sinto teu perfume, meu paladar degusta o sabor de doçuras eternas, porque és tu meu paladar e meu sabor, e és para mim um alimento mais doce que um favo de mel.
Todos os pássaros do céu alegram meus ouvidos com a doçura de seus suaves cantos, porque tu, Verbo de Deus, tu és como dulcíssima melodia no meio de todas as criaturas (S, pp. 254-255, jardin intèrieur, 10 janvier).


Verbo de Deus...Uma vez mais encontramos nessas linhas o eco do Evangelho de João, em que a palavra "Deus", como aliás em toda a Biblía, pode quase sempre ser completada pela palavra "Pai", pois ali representa uma pessoa divina distinta e não a natureza divina em sua generalidade: " No príncipio era o Verbo, a Palavra de Deus (o Pai), e o Verbo estava junto de Deus (o Pai), e o Verbo era Deus. Ele estava no principio junto de Deus (o Pai). Por ele tudo foi feito, e nada do que foi feito foi feito sem ele. Nele estava a vida..."(Jo 1, 1-5).
Este Filho do Pai, Maria Celeste o acolhe com alegria na hora da comunhão. É para ela o momento em que descobre que Jesus-hóstia lhe comunica o dom do Espírito Santo:

Nesta manhã, dia de pentecostes de 1738, pareceu-me, ó Verbo divino, que ao entrares em minha alma pela santa comunhão, teu divino Espírito ali penetrava como possantíssimo raio de luz.
Compreendi que em ti, Verbo do Pai, me era dado o Espírito da verdade. Eu o recebi em meu coração como uma seta de fogo, mas muito doce, que em mim consumia todas as minhas misérias e me fazia ver que eu era como uma criança de dois anos em teu coração. Ó meu Bem-amado, como poderia eu jamais saber explicar que tesouro inestimável, que riqueza sem limites, que bondade sem par és tu! (E, L'an 1738).


E nós hoje?



Quando oramos com as palavras do Pai nosso, será que pensamos nesse Deus Pai, que é amor? Que não é senão amor? É esse o Deus Pai que enviou seu Filho a esta terra para nos tornar possível descobrir seu amor e ver a Deus: "Quem me viu, viu o Pai"(Jo 14,9), dizia Jesus a Tomé,  incrédulo.
Será que pensamos no "plano do Pai"? Esse plano de salvação, de transformação da humanidade, sua eterna divinização de acordo com o modelo do Homem novo, o Cristo em sua glória de ressuscitado?
Quando dizemos "Pai nosso...seja feita a vossa vontade", será que pensamos em desgraças que podem advir sobre nós ou no grandioso plano do Pai sobre cada ser humano? Melhor: será que rezamos pelo triunfo de sua vontade amorosa em nós e ao nosso redor?
Por fim, quando recebemos a eucaristia, será que somos conscientes de que ela é um dom do Pai? Em seguida, será que acolhemos o dom do Filho, o Espírito Santo, que vem a nós como no dia de Pentecostes para nos inflamar no amor de Deus para com todos os homens?

Oremos com Maria Celeste


Pai eterno, meu Deus,
Verdade por essência, Santidade infinita,
mostra-me teu Filho,...
no qual estão todas as tuas complacências
e tua alegria eterna,
para que, por ele, eu te possua,
Pai santíssimo,
para que te ame com seu amor,
e ele te revele a mim,
para que eu te conheça na verdade
e te ame como o desejas e me pedes.
Luz inacessível,
na qual vejo todas as ciências sem erro,
Luz da qual as trevas não podem se aproximar
e que ilumina minha ignorância
Pai Santo,
dá-me este Filho, teu Verbo, que me resgatou...
Dá-me aquele que eu amo,

em quem espero e em quem eu vivo(E, L'an 1737) 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Maria Celeste Crostarosa: uma inspiração para a Vida Religio



Celebrar, em 18 de Junho de 2016, a Beatificação de Madre Celeste Crostarosa (1696-1755), é motivo de alegria evangélica não só para a Ordem do Santíssimo Salvador (Redentoristinas) e para a Igreja do mundo inteiro, mas também para nós Redentoristas que somos frutos dessa inspiração divina. Daí se faz fundamental reconhecermos nessa esplendorosa mulher, atualmente beata e apaixonada por Deus, o título de inspiradora da Congregação no Santíssimo Redentor, dentre outros inúmeros títulos que podemos deslumbrar nessa monja exemplar. Porém, aqui nos limitamos a contemplar em Crostarosa alguns traços fundamentais e marcantes de uma bela “alma religiosa chamada por Ele, [Jesus Cristo], em seu seguimento” (CROSTAROSA, Maria Celeste. Trecho da Autobiografia.Trad. J. B. Boaventura, p.17, acréscimo nosso) que é exemplo de motivação tanto para as monjas redentoristas, e as religiosas do mundo inteiro, como para nós, religiosos da Vida Consagrada.
Preliminarmenteo preconceito básico que podemos quebrar é aquele que relega a vida monástica há uma solidão e fechamento para vários aspectos da Vida Religiosa Missionária. Resolutamente as ordens monásticas são tanto religiosas e missionárias como as Congregações ou modos de Vida apostólicos. E diga-se de passagem, que uma coisa comum que nos uni e comungamos, independente de se estar na vida monástica ou apostólica, em casas de formação, ou paróquias missionárias, é a Vida Religiosa Consagrada. Na fundadora das Redentoristinas,Maria Celeste, encontramos essa digna e magnífica expressão de Religiosa. 
Como as primeiras virgens (nas proximidades do século III e IV) que buscaram uma vida em total dedicação as Deus e as coisas divinas, assim também foi Crostarosa, desde os 05 ou 06 anos, quando, conhecendo as misericórdia de Jesus para com ela, quis amá-lo e servi-lo, numa doação total de si mesma. Esse desejoíntimo e inquietante de Deus, que ela não sabia explicar inicialmente, é uma marca característica da radicalidade da Vida Religiosa.  A sua experiência espiritual brotava de uma sensibilidade feminina profunda para com a misericórdia do Pai e um desejo de agradar a Jesus, pois este “Ora dizia ao [seu] coração: Deixa as criaturas, ama-me somente. Ora dizia: Vem a Mim entrega-te toda a meu amor e eu te darei os verdadeiros contentamentos” (Ibidem,p. 19, acréscimo nosso). A radicalidade do amor, numa intimidade profunda, desembocava em um amor apaixonado por Jesus. Assim desde muito nova “ela mandava seus suspiros amorosos a Deus, [e], muito frequentes, tinha desejos e ardor na vontade, e não sabia como satisfazê-los” (Ibidem, p.18). Portanto, esse desejo profundo de fazer comunhão com Deus, a partir dessa sensibilidade profunda de fé é o primeiro elemento da essência de sua religiosidade, que deve inspirar a nossa trajetória, enquanto religiosos (as).
Outro elemento característico de sua espiritualidade, enquanto inspiração para Vida Religiosa, era a oração. Não se trata portanto, de práticas metodológicas e formas oracionais, mas de uma intimidade profunda com Deus, com Jesus misericordioso, que arrebatava-a muitas vezes em um amor profundo porJesus. Os exercícios espirituais de São Pedro de Alcantara, os momentos de profunda meditação, o silêncio interior e exterior, e os momentos de recolhimentos para rezar,a fim de se encontrar com Deus, foramos instrumentos iniciais da sua vidaque a possibilitou progressos na vida de oração e maturidade espiritual. Porém, outros recursos oracionais marcam a experiência crostarosiana. Todos esses meios foram contributos para que ela aprofundasse e amadurecesse sua experiência de fé e comunhão com Deus. Por meio disso, ela crescia na sua unidade com Deus a tal ponto de estar “toda cheia de bons desejos com resolução grande de se dar toda a Deus, e começar verdadeiramente uma vida santa” (Ibidem, p. 21).Neste sentido observamos a amplitude, profundidade e extensão da experiência de oração que Irmã Celeste tinha, tão necessário nos tempos atuais para a Vida Religiosa.
Se a Vida Consagrada tem sua expressão espiritual e jurídica nos votos evangélicos, para a Beata Celeste tal profissão religiosa não se sustenta como práticas ou normas formais. Se certa tradição do seu tempo relegou os votos na sua experiência formal negativa do “não pode”, em Crostarosa tal experiência é substituída por um significado profundo único e atual: a unidade e permanecia no amor misericordioso de Deus. A sua forma de viver a profissão era mais do que normaspráticas acéticas que não possuíam sentido em si mesma. Segundo sustenta Domenico Capone sobre Celeste, ela “professa não a pobreza, mas Cristo pobre; não a obediência, mas Cristo obediente; não a castidade, mas Cristo que, com a pureza de seu ser,[...] ama a Deus e ama a todos os homens”(CAPONE, 1999, p.25).Na sua experiência religiosa, os votos e regras de vida, eram prescindidos de umafonte motivadora, que impulsionava-a para a liberdade evangélica e realização da Vida Consagrada de modo mais substancial, e além das regras. Era a comunhão dialogal, espiritual, experiencial com a Santíssima Trindade, e de modo especial Jesus, seu esposo, que fazia com que ela não só vivesse a Vida Religiosa Monástica, mas empreendesse um espírito renovado e autônomo a frente de seu tempo. Podemos dizer que a inspiração de Crostarosa na Vida Religiosa é a abertura da consciência livre e autônoma para as investiduras que o Espírito nos chama, nesse modo de vida, para realizar com maestria a vontade de Deus.
Outro fator característico desta Beata é a experiência da fraternidade evangélica. Ora se a vida monástica a colocava em vários momentos de oração, contemplação e recolhimento, por outro lado se tinha os momentos de encontros, entretenimentos e recreios comunitários. Nessa experiência podemos dizer que ela possuía um projeto de vida que atendia as necessidadesevangélicas de suas irmãs. A partir da sua regra de vida, emitida pela experiência espiritual com Jesus, ela se orientava na vida fraterna para habitar e conviver entre as irmãs, a fim “de ajudar sua eterna salvação e o bem de suas almas” (Ibidem, p. 39). A fonte dessa disposição fraterna era a experiência do seu amado Jesus: “Amarás o teu próximo, e não lamentarás de qualquer coisa que te for feita por ele” (Ibidem, p. 40). Assim se expressava Jesus na experiência dialogal dela: “Quando tu sentires as graças e os bens que eu compartilho com teu próximo, tu te comprazerás como se o tivesses recebido” (Ibidem.). Essa é a alegria com o crescimento de felicidade evangélica do outro. É expressão da verdadeira fraternidade e caridade que brota do coração de Deus. A fraternidade presente em Crostarosa é estímulo iluminante para a Vida Religiosa.
Outro elemento significativo no itinerário da vida de Crostarosa, exemplar para a Vida Religiosa, é a prática das virtudes evangélicas teologais: fé, esperança e caridade. Estas, apesar de não ser explicitada nas regras monásticas feita por ela, estavam contidas nas nove regras do Instituto. Sobre as virtudes praticadas por ela podemos destacar a humildade, a abnegação de si e a mansidão profética, dentre outras. Em suma, todas as virtudes possuem sua fonte na experiência espiritual com Cristo. “Ele é uma escada mística onde o homem sobe da terra ao Céu[...]. Portanto o homem ascende das misérias desta terra por meio desta escada mística de ouro que são as virtudes da vida de nosso Senhor Jesus Cristo”(Ibidem, p.56). Se a vida de Celeste e a construção das regras religiosas são marcadas pelo progresso virtuoso, as vias para tal empreendimento “são as obras e as virtudes de Jesus Cristo que se fazem obras da [sua] própria alma pela graça”(Ibidem. Acréscimo nosso).
Assim, de tal modo podemos perceber que a beata vida não consiste nas práticas formais, mas em uma experiência baseada nas verdades da fé, em que esta “é infusa em nosso intelecto por dom sobrenatural”(Ibidem.), isto é, por dom divino que transcende a natureza humana, como acentua São Paulo em relação a graça de Deus(2Cor.12, 7-9). “E a vida é o amor, e a união com o amado Verbo. E portanto se conclui ser Ele peregrino naqueles que são unidos a Ele por amor e unção verdadeira pela fé, pelas obras santas e pela graça do Espírito Santo”(Ibidem.).
A leitura-oracional-meditativo-contemplativo das Sagradas Escrituras, a Celebração eucarística, a Adoração ao Santíssimo Sacramento e a Confissão são práticas sacras e litúrgicas de fé, constantemente realizada por Crostarosa na sua Vida Religiosa. Sem tais elementos não é possível entender a sua espiritualidade cristocêntrica e muito menos a mística que se desabrocha na sua espiritualidade. Esse percurso deve nos inspirar para a radicalidade evangélica, no itinerário da Vida Religiosa, e para encontrarmos as fontes fundamentais dos novos caminhos de evangelização. Em Crostarosa também encontramos elementos significativos da piedade popular como as práticas devocionais da reza do terço e as meditações oracionais de são Francisco de Sales. Neste sentido, a piedade popular e práticas devocionais são recursos que auxiliam na promoção da Vida Religiosa.

Por fim, podemos perceber que a Beata Crostarosa passou por um bom discernimento na sua maturação religiosa espiritual. E isso se fez pela colaboração dos diretores espirituais, confessores, amigos próximos, irmãs e irmãos religiosos. Sua postura de diálogo, comunhão, críticas, conflitos e inspiração divina, no seu tempo, só acentua o caráter comunitário de sua religiosidade e a necessidade de responder, conforme os desígnios de Deus, as exigência do seu tempo, na realidade da vida monástica.  A fundação da Ordem do Santíssimo Salvado, as reformas e mudanças que ela empreendeu nos mosteiros por onde passou, qualifica-a como pioneira do seu tempo, e devem nos inspirar para empreender semelhante renovação na Vida Religiosa Consagrada conforme os sinais do tempos atuais e suas as diversas realidades.Que a Bem aventurada Maria Celeste Crostarosa nos ajude a ser sal da terra e luz do mundo no cotidiano da vida religiosa.

Noviço Redentorista Isaias