quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Quando um Passarinho Voa...





Observe...Quando um passarinho voa, à medida que se eleva, ele entra num ar mais puro e está ao abrigo de predadores. Mais se eleva, mais fica em segurança. Assim a alma Cristã...Suba, pois, o quanto possível, para o ar puro e calmo de meu divino Ser. Ali gozará de delicioso silêncio e de grande segurança (L, Quarto Diálogo).

Maria Celeste não almeja a uma espiritualidade pela metade. Quando escreve a Regra para o Novo Instituto que o Senhor quer fundar, com ela e com seu amigo Afonso, ela convida suas Monjas não a se prenderem escrupulosamente a pequenas devoções ou a recitarem longas fórmulas prontas de oração, mas a se elevarem à contemplação do Deus de Jesus Cristo, Deus Pai em comunhão com o Filho, no Espírito Santo, a Santíssima Trindade. E mais: desdea primeira página, Maria Celeste evoca o projeto de Deus para o mundo, o "plano do Pai":

Eu tive o ardente desejo de dar ao mundo meu Espírito e de comunicá-lo a minhas criaturas dotadas de razão, para com elas e nelas viver até o fim dos tempos. No meu imenso amor, dei-lhes meu Filho único, e por ele lhes comuniquei  meu divino Espírito Consolador, para divinizá-los na vida, na justiça e na verdade, e a todos guardar em meu afeto, naquele que é o Filho do meu amor, o próprio Verbo (F-m, n. 1, Règle, but et Idée).


Eu lhes dei....comuniquei-lhes meu Espírito...para divinizá-los... O Deus de Maria Celeste é um Deus que toma a iniciativa. Ele é quem doa primeiro. Por quê? Para divinizar os seres humanos.
Este "plano do Pai" é uma idéia central em Maria Celeste. Ela segue o pensamento dos Padres da Igreja, como Irineu e Inácio de Antioquia, que repetiam: "Deus se fez homem, para que o homem pudesse tornar-se Deus". Por isso, sua espiritualidade é profundamente trinitária, ao mesmo tempo em que se mantém centrada no Cristo e seu mistério pascal. É, de fato, a partir do Cristo, Deus feito homem, morto no extremo de seu amor e ressuscitado, que o verdadeiro Deus se deixou ver. E ela volta frequentemente a esse tema em seus escritos:

Ò Amor, Verbo, Deus de meu coração! Sabendo que és a vida de todas as coisas que existem, como poderia eu explicar esse bem? És o ser e a vida de bondade no céu para todos os justos e todos os espíritos puríssimos do além, uma vez que é em ti que eles têm o existir, a vida e a luz da glória...
Olho o céu e contemplo as estrelas: és tu seu esplendor e sua beleza. É em ti que elas têm a vida e continuam a existir.
Olho o sol e a lua e vejo que és tu seu brilho e sua vida. Olho o mar: o bater das ondas, com seu brado sem palavras, ressoa como alegres vozes que ouço interiormente, pois que aí te manifestas, Verbo-Deus amor, como vida, sabedoria e seu ser.
Olho a terra, as plantas e as flores e as frutas...Sinto teu perfume, meu paladar degusta o sabor de doçuras eternas, porque és tu meu paladar e meu sabor, e és para mim um alimento mais doce que um favo de mel.
Todos os pássaros do céu alegram meus ouvidos com a doçura de seus suaves cantos, porque tu, Verbo de Deus, tu és como dulcíssima melodia no meio de todas as criaturas (S, pp. 254-255, jardin intèrieur, 10 janvier).


Verbo de Deus...Uma vez mais encontramos nessas linhas o eco do Evangelho de João, em que a palavra "Deus", como aliás em toda a Biblía, pode quase sempre ser completada pela palavra "Pai", pois ali representa uma pessoa divina distinta e não a natureza divina em sua generalidade: " No príncipio era o Verbo, a Palavra de Deus (o Pai), e o Verbo estava junto de Deus (o Pai), e o Verbo era Deus. Ele estava no principio junto de Deus (o Pai). Por ele tudo foi feito, e nada do que foi feito foi feito sem ele. Nele estava a vida..."(Jo 1, 1-5).
Este Filho do Pai, Maria Celeste o acolhe com alegria na hora da comunhão. É para ela o momento em que descobre que Jesus-hóstia lhe comunica o dom do Espírito Santo:

Nesta manhã, dia de pentecostes de 1738, pareceu-me, ó Verbo divino, que ao entrares em minha alma pela santa comunhão, teu divino Espírito ali penetrava como possantíssimo raio de luz.
Compreendi que em ti, Verbo do Pai, me era dado o Espírito da verdade. Eu o recebi em meu coração como uma seta de fogo, mas muito doce, que em mim consumia todas as minhas misérias e me fazia ver que eu era como uma criança de dois anos em teu coração. Ó meu Bem-amado, como poderia eu jamais saber explicar que tesouro inestimável, que riqueza sem limites, que bondade sem par és tu! (E, L'an 1738).


E nós hoje?



Quando oramos com as palavras do Pai nosso, será que pensamos nesse Deus Pai, que é amor? Que não é senão amor? É esse o Deus Pai que enviou seu Filho a esta terra para nos tornar possível descobrir seu amor e ver a Deus: "Quem me viu, viu o Pai"(Jo 14,9), dizia Jesus a Tomé,  incrédulo.
Será que pensamos no "plano do Pai"? Esse plano de salvação, de transformação da humanidade, sua eterna divinização de acordo com o modelo do Homem novo, o Cristo em sua glória de ressuscitado?
Quando dizemos "Pai nosso...seja feita a vossa vontade", será que pensamos em desgraças que podem advir sobre nós ou no grandioso plano do Pai sobre cada ser humano? Melhor: será que rezamos pelo triunfo de sua vontade amorosa em nós e ao nosso redor?
Por fim, quando recebemos a eucaristia, será que somos conscientes de que ela é um dom do Pai? Em seguida, será que acolhemos o dom do Filho, o Espírito Santo, que vem a nós como no dia de Pentecostes para nos inflamar no amor de Deus para com todos os homens?

Oremos com Maria Celeste


Pai eterno, meu Deus,
Verdade por essência, Santidade infinita,
mostra-me teu Filho,...
no qual estão todas as tuas complacências
e tua alegria eterna,
para que, por ele, eu te possua,
Pai santíssimo,
para que te ame com seu amor,
e ele te revele a mim,
para que eu te conheça na verdade
e te ame como o desejas e me pedes.
Luz inacessível,
na qual vejo todas as ciências sem erro,
Luz da qual as trevas não podem se aproximar
e que ilumina minha ignorância
Pai Santo,
dá-me este Filho, teu Verbo, que me resgatou...
Dá-me aquele que eu amo,

em quem espero e em quem eu vivo(E, L'an 1737) 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Maria Celeste Crostarosa: uma inspiração para a Vida Religio



Celebrar, em 18 de Junho de 2016, a Beatificação de Madre Celeste Crostarosa (1696-1755), é motivo de alegria evangélica não só para a Ordem do Santíssimo Salvador (Redentoristinas) e para a Igreja do mundo inteiro, mas também para nós Redentoristas que somos frutos dessa inspiração divina. Daí se faz fundamental reconhecermos nessa esplendorosa mulher, atualmente beata e apaixonada por Deus, o título de inspiradora da Congregação no Santíssimo Redentor, dentre outros inúmeros títulos que podemos deslumbrar nessa monja exemplar. Porém, aqui nos limitamos a contemplar em Crostarosa alguns traços fundamentais e marcantes de uma bela “alma religiosa chamada por Ele, [Jesus Cristo], em seu seguimento” (CROSTAROSA, Maria Celeste. Trecho da Autobiografia.Trad. J. B. Boaventura, p.17, acréscimo nosso) que é exemplo de motivação tanto para as monjas redentoristas, e as religiosas do mundo inteiro, como para nós, religiosos da Vida Consagrada.
Preliminarmenteo preconceito básico que podemos quebrar é aquele que relega a vida monástica há uma solidão e fechamento para vários aspectos da Vida Religiosa Missionária. Resolutamente as ordens monásticas são tanto religiosas e missionárias como as Congregações ou modos de Vida apostólicos. E diga-se de passagem, que uma coisa comum que nos uni e comungamos, independente de se estar na vida monástica ou apostólica, em casas de formação, ou paróquias missionárias, é a Vida Religiosa Consagrada. Na fundadora das Redentoristinas,Maria Celeste, encontramos essa digna e magnífica expressão de Religiosa. 
Como as primeiras virgens (nas proximidades do século III e IV) que buscaram uma vida em total dedicação as Deus e as coisas divinas, assim também foi Crostarosa, desde os 05 ou 06 anos, quando, conhecendo as misericórdia de Jesus para com ela, quis amá-lo e servi-lo, numa doação total de si mesma. Esse desejoíntimo e inquietante de Deus, que ela não sabia explicar inicialmente, é uma marca característica da radicalidade da Vida Religiosa.  A sua experiência espiritual brotava de uma sensibilidade feminina profunda para com a misericórdia do Pai e um desejo de agradar a Jesus, pois este “Ora dizia ao [seu] coração: Deixa as criaturas, ama-me somente. Ora dizia: Vem a Mim entrega-te toda a meu amor e eu te darei os verdadeiros contentamentos” (Ibidem,p. 19, acréscimo nosso). A radicalidade do amor, numa intimidade profunda, desembocava em um amor apaixonado por Jesus. Assim desde muito nova “ela mandava seus suspiros amorosos a Deus, [e], muito frequentes, tinha desejos e ardor na vontade, e não sabia como satisfazê-los” (Ibidem, p.18). Portanto, esse desejo profundo de fazer comunhão com Deus, a partir dessa sensibilidade profunda de fé é o primeiro elemento da essência de sua religiosidade, que deve inspirar a nossa trajetória, enquanto religiosos (as).
Outro elemento característico de sua espiritualidade, enquanto inspiração para Vida Religiosa, era a oração. Não se trata portanto, de práticas metodológicas e formas oracionais, mas de uma intimidade profunda com Deus, com Jesus misericordioso, que arrebatava-a muitas vezes em um amor profundo porJesus. Os exercícios espirituais de São Pedro de Alcantara, os momentos de profunda meditação, o silêncio interior e exterior, e os momentos de recolhimentos para rezar,a fim de se encontrar com Deus, foramos instrumentos iniciais da sua vidaque a possibilitou progressos na vida de oração e maturidade espiritual. Porém, outros recursos oracionais marcam a experiência crostarosiana. Todos esses meios foram contributos para que ela aprofundasse e amadurecesse sua experiência de fé e comunhão com Deus. Por meio disso, ela crescia na sua unidade com Deus a tal ponto de estar “toda cheia de bons desejos com resolução grande de se dar toda a Deus, e começar verdadeiramente uma vida santa” (Ibidem, p. 21).Neste sentido observamos a amplitude, profundidade e extensão da experiência de oração que Irmã Celeste tinha, tão necessário nos tempos atuais para a Vida Religiosa.
Se a Vida Consagrada tem sua expressão espiritual e jurídica nos votos evangélicos, para a Beata Celeste tal profissão religiosa não se sustenta como práticas ou normas formais. Se certa tradição do seu tempo relegou os votos na sua experiência formal negativa do “não pode”, em Crostarosa tal experiência é substituída por um significado profundo único e atual: a unidade e permanecia no amor misericordioso de Deus. A sua forma de viver a profissão era mais do que normaspráticas acéticas que não possuíam sentido em si mesma. Segundo sustenta Domenico Capone sobre Celeste, ela “professa não a pobreza, mas Cristo pobre; não a obediência, mas Cristo obediente; não a castidade, mas Cristo que, com a pureza de seu ser,[...] ama a Deus e ama a todos os homens”(CAPONE, 1999, p.25).Na sua experiência religiosa, os votos e regras de vida, eram prescindidos de umafonte motivadora, que impulsionava-a para a liberdade evangélica e realização da Vida Consagrada de modo mais substancial, e além das regras. Era a comunhão dialogal, espiritual, experiencial com a Santíssima Trindade, e de modo especial Jesus, seu esposo, que fazia com que ela não só vivesse a Vida Religiosa Monástica, mas empreendesse um espírito renovado e autônomo a frente de seu tempo. Podemos dizer que a inspiração de Crostarosa na Vida Religiosa é a abertura da consciência livre e autônoma para as investiduras que o Espírito nos chama, nesse modo de vida, para realizar com maestria a vontade de Deus.
Outro fator característico desta Beata é a experiência da fraternidade evangélica. Ora se a vida monástica a colocava em vários momentos de oração, contemplação e recolhimento, por outro lado se tinha os momentos de encontros, entretenimentos e recreios comunitários. Nessa experiência podemos dizer que ela possuía um projeto de vida que atendia as necessidadesevangélicas de suas irmãs. A partir da sua regra de vida, emitida pela experiência espiritual com Jesus, ela se orientava na vida fraterna para habitar e conviver entre as irmãs, a fim “de ajudar sua eterna salvação e o bem de suas almas” (Ibidem, p. 39). A fonte dessa disposição fraterna era a experiência do seu amado Jesus: “Amarás o teu próximo, e não lamentarás de qualquer coisa que te for feita por ele” (Ibidem, p. 40). Assim se expressava Jesus na experiência dialogal dela: “Quando tu sentires as graças e os bens que eu compartilho com teu próximo, tu te comprazerás como se o tivesses recebido” (Ibidem.). Essa é a alegria com o crescimento de felicidade evangélica do outro. É expressão da verdadeira fraternidade e caridade que brota do coração de Deus. A fraternidade presente em Crostarosa é estímulo iluminante para a Vida Religiosa.
Outro elemento significativo no itinerário da vida de Crostarosa, exemplar para a Vida Religiosa, é a prática das virtudes evangélicas teologais: fé, esperança e caridade. Estas, apesar de não ser explicitada nas regras monásticas feita por ela, estavam contidas nas nove regras do Instituto. Sobre as virtudes praticadas por ela podemos destacar a humildade, a abnegação de si e a mansidão profética, dentre outras. Em suma, todas as virtudes possuem sua fonte na experiência espiritual com Cristo. “Ele é uma escada mística onde o homem sobe da terra ao Céu[...]. Portanto o homem ascende das misérias desta terra por meio desta escada mística de ouro que são as virtudes da vida de nosso Senhor Jesus Cristo”(Ibidem, p.56). Se a vida de Celeste e a construção das regras religiosas são marcadas pelo progresso virtuoso, as vias para tal empreendimento “são as obras e as virtudes de Jesus Cristo que se fazem obras da [sua] própria alma pela graça”(Ibidem. Acréscimo nosso).
Assim, de tal modo podemos perceber que a beata vida não consiste nas práticas formais, mas em uma experiência baseada nas verdades da fé, em que esta “é infusa em nosso intelecto por dom sobrenatural”(Ibidem.), isto é, por dom divino que transcende a natureza humana, como acentua São Paulo em relação a graça de Deus(2Cor.12, 7-9). “E a vida é o amor, e a união com o amado Verbo. E portanto se conclui ser Ele peregrino naqueles que são unidos a Ele por amor e unção verdadeira pela fé, pelas obras santas e pela graça do Espírito Santo”(Ibidem.).
A leitura-oracional-meditativo-contemplativo das Sagradas Escrituras, a Celebração eucarística, a Adoração ao Santíssimo Sacramento e a Confissão são práticas sacras e litúrgicas de fé, constantemente realizada por Crostarosa na sua Vida Religiosa. Sem tais elementos não é possível entender a sua espiritualidade cristocêntrica e muito menos a mística que se desabrocha na sua espiritualidade. Esse percurso deve nos inspirar para a radicalidade evangélica, no itinerário da Vida Religiosa, e para encontrarmos as fontes fundamentais dos novos caminhos de evangelização. Em Crostarosa também encontramos elementos significativos da piedade popular como as práticas devocionais da reza do terço e as meditações oracionais de são Francisco de Sales. Neste sentido, a piedade popular e práticas devocionais são recursos que auxiliam na promoção da Vida Religiosa.

Por fim, podemos perceber que a Beata Crostarosa passou por um bom discernimento na sua maturação religiosa espiritual. E isso se fez pela colaboração dos diretores espirituais, confessores, amigos próximos, irmãs e irmãos religiosos. Sua postura de diálogo, comunhão, críticas, conflitos e inspiração divina, no seu tempo, só acentua o caráter comunitário de sua religiosidade e a necessidade de responder, conforme os desígnios de Deus, as exigência do seu tempo, na realidade da vida monástica.  A fundação da Ordem do Santíssimo Salvado, as reformas e mudanças que ela empreendeu nos mosteiros por onde passou, qualifica-a como pioneira do seu tempo, e devem nos inspirar para empreender semelhante renovação na Vida Religiosa Consagrada conforme os sinais do tempos atuais e suas as diversas realidades.Que a Bem aventurada Maria Celeste Crostarosa nos ajude a ser sal da terra e luz do mundo no cotidiano da vida religiosa.

Noviço Redentorista Isaias

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Em preparação a beatificação de nossa fundadora, mais um texto do Livro "Orar 15 duas com Veneravel Maria Celeste Crostarosa"

RETRATOS VIVOS DE MEU FILHO...

Para que minhas criaturas guardem a lembrança desse amor eterno com que as amei, desejei escolher este Instituto, a fim de que seja para o mundo inteiro uma Memória viva de tudo o que meu Filho se pôs a fazer pela salvação da humanidade, durante os trinta e três anos que viveu e caminhou como homem pelo mundo...Gravem, pois, sua vida em suas almas, assim como sua verdadeira imagem e lembrança. Sejam sobre a terra retratos autênticos e bem vivos de meu Filho bem - amado. È ele o único líder e único Rei de vocês! (F-M, n. 1 Règles, But et Idée).

            Retratos vivos de meu Filho...Uma Memória viva de tudo o que meu filho fez... Essas palavras figuram na primeira página das Regras do novo Instituto e aparecem muitas vezes nos escritos referentes à fundação, revelando um aspecto inovador da imitação do Cristo. Numa época em que a maioria das pessoas considerava essa imitação como um simples copiar as virtudes de Jesus, Maria Celeste insiste nas raízes evangélicas e no caráter global dessa imitação.
            Em outras palavras, para ela não se trata tanto de copiar, uma a uma, as virtudes do Cristo, e sim de se impregnar de sua maneira de ser e de agir, de se fazer um com Ele, de a Ele se unir para que nos transforme a ponto de fazermos ver seu rosto, entender sua mensagem, sentir seu amor, e nos tornar assim "uma viva memória do Filho do eterno Pai".
            Além disso, para Maria Celeste, essa imitação não deev ser individual, mas comunitária. Trata-se de, a um tempo, em Igreja, fazer ver o Cristo e descobrir seu amor para salvar todos os homens. Ou seja, não é para se fugir do mundo, mas para salvá-lo. Assim, num tempo em que muitos entravam para a vida religiosa procurando sua santificação pessoal, Maria Celeste faz ver que se deve entrar para a vida religiosa primeiro para evangelizar o mundo, como o lembrará alguns séculos depois o Concílio Vaticano II. É a essa imitação que Jesus chama sem cessar Maria Celeste

Minha filha, eu serei luz para sua conduta, e sua alma nutrirá do alimento da vida eterna, alimento oculto durante a vida que aqui vivi. Este há de ser o espírito de seu Instituto: minha memória e minha imitação, tudo como se eu vivesse entre vocês. Portanto, agora, minha filha, ordeno que escreva algo sobre minha pessoa, para que se possa conhecer tudo o que você recebeu de luzes e  benefícios desta fonte que sou eu... Onde estão os fundamentos sobre os quais se apóiam as Regras que vocês adotaram? Tudo repousa sobre minha vida, sobre a humildade e sobre a caridade (L, cap. III).

            O essencial da espiritualidade de Maria Celeste é o Evangelho, a Boa Nova do Deus Amor. Para isso é preciso contemplar o Cristo. Ele revela o verdadeiro rosto de Deus, Pai e Mãe a um tempo, infinitamente pródigo de amor para conosco, desejoso de a todos perdoar e de promover o crescimento de todos, sobretudo dos mais humildes e mais pobres. Maria Celeste se lembra de confidências que lhe fez Jesus a esse respeito:

Já desde minha vinda ao mundo, eu detestava em você tudo o que você amava e que eu não podia amar por se opor a mim. Desde que cheguei, detestava as honrarias dos homens. Eu nasci num estábulo, pobre e desconhecido; fui expulso, posto para fugir e perseguido pelos homens; vivendo em extrema pobreza, odiei as riquezas. Eu era o último dos homens, sem casa,perseguido, amaldiçoado por todos. Amava a abjeção, dava minha preferência aos pobres, aos simples, aos ignorantes, aos pecadores, e conservava com eles. Para Fugir às honrarias que os homens tanto estimam, ocultei minha divindade por um milagre do Todo- poderoso. Para condenar o apego ao bem- estar e ao conforto, eu me alimentava e me vestia pobremente, abraçando todos os incômodos, andando descalço em minhas longas viagens, suportando as intempéries e o ardor do sol, para a glória de meu Pai e a salvação das almas. Como recompensa por meus inúmeros milagres e benefícios, os homens prepararam para mim uma cruz, espinhos, chicotadas, cravos e fel. Zombaram de mim! Fui injuriado, blasfemado, amaldiçoado, castigado e carregado de dores, sem alívio nem consolo. Meu abandono e meu aniquilamento foram totais quando, sobre a cruz, entreguei o espírito, não sem antes ter rogado e lançado um olhar de misericórdia sobre todos os que me haviam ofendido e levado à morte. Veja quanto eu amava e abraçava o que você detesta e abomina, e quanto condenava o que você tinha amado! (L, Oitavo diálogo)
                                                                                                      
            Maria Celeste fica transtornada com essa confidência. E descobre que ninguém há mais humilde que Deus: para nos revelar seu amor, o Senhor quis passar pelo aniquilamento e pela morte. Ela quer segui-lo e nos convida a tomar o mesmo caminho. Mas, como bem diz Sabatino Majorano, não devemos, colocar o acento "sobre exemplos  de Cristo, e sim sobre o seu exemplo". Disso estava convencida Maria Celeste. em todos os seus escritos, ela fala disso. Trata-se, para ela, de fazer uma união de vida com Jesus, principalmente na hora da eucaristia:

Em dado momento, ela (a alma em oração) entra nele pelo amor e se une a todas as suas fadigas e alegrias, e se vê, ao mesmo tempo, cumulada de extrema felicidade amorosa e toda cercada de dores e sofrimentos, à semelhança desse modelo que nela se imprime como um sinete na cera derretida... Dá-se esse tipo de oração geralmente na ação de graças após a comunhão; a alma, no entanto, fica sob sua influência até a comunhão do dia seguinte. Com freqüência o Senhor se compraz em renovar esse favor muitos dias seguidos (L, Degrau Décimo Primeiro).

            Esta intuição do mistério pascal, na vida e nos escritos de Maria Celeste, nós a encontramos na exortação apostólica de João Paulo II, de 25 de março de 1996, sobre a vida consagrada: "A vida consagrada constitui verdadeiramente uma memória viva da maneira de viver e de agir de Jesus enquanto Verbo encarnado diante do PAi e diante dos homens"(Vie Consacrée, n. 22).


E nós, hoje?
              Quando rezamos, nossa oração se dirige a um grande personagem, de infinita majestade, como aos grandes deste mundo, ou ao Deus do Evangelho, o Deus humilde?
            Seguindo Inácio de Antioquia, Irineu e os padre da Igreja, Maria Celeste acreditava que "Deus se fez homem, para que o homem pudesse tornar-se Deus". Será que acreditamos nesse "plano do Pai", a divinização do homem?
              Compreendemos bem que o chamado de Deus Pai para que sejamos "retratos vivos de seu Filho" não se destina apenas a freiras e religiosos, mas a todos os cristãos? Todos somos chamados a ser "retratos vivos de Cristo" e "memória viva de tudo o que ele fez". Por quê? Porque as pessoas que nos rodeiam não irão, em sua grande maioria, ouvir ou ler os quatro evangelhos do Novo Testamento, mas serão numerosos os que aceitarão ler o "quinto evangelho", aquele que nós escrevemos, dia a dia, individual e comunitariamente, com nossas palavras, com nossos atos, com nossa vida. Peçamos, pois, ao Senhor que envie seu Espírito, para que nosso "quinto evangelho" seja de acordo com o Evangelho de Jesus, aquele que ele escreveu ao longo dos trinta e três anos de sua vida terrena.


Oremos com Maria Celeste

Pai Santo,
tu me amaste com predileção.
Consagraste-me a reviver teu amor
sobre os passos do Cristo Redentor,
que me pede morrer a tudo o que não é virtude e bem.
Derrama sobre mim teu Espírito,
e faze que por seus dons
eu possa crescer e me empenhar
em tudo o que devo fazer a teu serviço,
pelo mundo e pela Igreja...
Reveste-me de tua beleza, Senhor,
para que consiga te revelar a todos.
Assim, que todos os que se aproximarem
sintam tua presença
e tenham confiança, luz e segurança em ti
somente.
Eu me confio a ti,
em ti me abandono.
Amém (VM, n. 20, p. 15)



quarta-feira, 23 de março de 2016

A alma pode alegrar-se nos desprezos

Continuando rezando com Beata Maria Celeste nessa Semana Santa!



Meu, sumo bem de minha alma, nessas coisas vivo sofrendo por vós, parecendo-me que aqueles juízos humanos estão bem longe de vossa suma pureza. E por que quis que todo meu homem interior e exterior pensasse e amasse somente a vós.
Muito mais "sofro" porque o meu espírito, o meu coração não está acostumado a ter outro movimento que de vós, não vos contradizendo os meus sentidos, "porque"unidos à parte superior da vontade, estão quase sempre de acordo no vosso amor.

Portanto por aquele amor com o qual usastes de tanta misericórdia para comigo ao morrer por minha salvação, peço-vos queirais conceder-me que eu esteja totalmente morta ao amor de mim mesma. E mais que me alegre com o meu aviltamento por vosso amor. (CROSTAROSA, Beata Maria Celeste. Diálogos da Alma: Quarto diálogo. Papercores: Belo horizonte, p. 176)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Momento de Espiritualidade na Semana Santa

Nessa grande semana Santa, queremos compartilhar uma meditação da autobriografia de nossa fundadora Beata Maria Celeste Crostarosa


Buscar Consolação nas chagas de Cristo

Filha, estas chagas são "como colo" para os aflitos, e assim enxugo as lágrimas dos olhos dos que me amam. Os quais, como meus filhinhos diletos, vêm a mim, como fazem as criancinhas com suas mães, gemendo, quando se apresentam diante dela, contando-lhes quanto lhes aconteceu, acrescentando-lhe, com tanto alivio, o que as atingiu e desgostou. E essa mãe para que a criancinha se esqueça dessa dor, a aperta ao seio, e assim a tranquiliza e aquieta docemente.
Assim eu faço com meus amados filhinhos quando são perseguidos pelo demônio ou pelas criaturas: eles recorrem a mim e eu os escondo no seio de minha eterna caridade, alimentando-os com as minhas chagas Mando-lhes, saindo delas, um licor tão suave às suas almas, que envia a seu espírito um vapor substancioso, com o qual os faço dormir no sono do amor e esquecem quanto lhes foi feito, e lhes amargurava o espírito.

(CROSTAROSA, Beata Maria Celeste. Diálogos da Alma: Quarto diálogo. Papercores: Belo horizonte, p. 177)

Quem disse que a vida Contemplativa não é missionária em todos os sentidos?

Nesse espírito compartilhamos a noticia da comunidade de Liguori, que envia a irmã Maria Celeste para sua nova missão na Comunidade de Maitland, Austrália. rezemos.






Em missão para Austrália

Irmã Maria Celeste, O.Ss.R. Liguori despediu finalmente para começar sua muito aguardada viagem para Austrália. Mais de um ano atrás, Irmã Maria Celeste foi escolhida para servir como mestre de noviças no Mosteiro Santíssimo Redentor em Maitland, New South Wales.

"Esta é uma missão que Deus me deu. Três mulheres que desejam entrar no mosteiro das Redentoristas, e três mulheres estão em discernimento vocacional", disse. "Não é falsa humildade quando eu digo que não sou uma mestra, mas apenas uma freira simples. Mas vou oferecer meu coração para amar e ajudar, e de bom grado compartilhar o modo de vida das Redentoristas, sendo uma memória viva de Jesus, nosso Redentor ".
Embora a espiritualidade redentorista e carisma são as mesmas em todo o mundo, a vida é diferente em cada mosteiro. "Em sua sabedoria, o bispo William Wright, da diocese de Maitland-Newcastle sugeriu que eu tenha tempo suficiente para aprender o ritmo da vida, e conhecer o tempo das candidatas", disse a irmã Celeste.
Localizado a três horas ao norte de Sydney, o Mosteiro do Santíssimo Redentor é construído nas alturas de Bolwarra Hunter Valley com vista para um belo lago e uma paisagem natural que faz fronteira com as florestas que cobrem as montanhas de Paterson. As Redentoristas na Austrália são a única comunidade Inglês falando que ainda usam vestes compridas de vermelho e azul e observar uma forma tradicional de vida religiosa: A Missa diária, o Ofício Divino sete vezes por dia, meditação,trabalho,  leitura espiritual, penitência, o silêncio sagrado e recreação.
John P. Schmidt, diretor do Centro saúde  São Clemente , organizou a cerimônia de envio de missão de Irmã Maria Celeste na semana passada. comunidades redentoristas de Liguori e área de São Louis se uniram as Redentoristas para desejar-lhe as bênçãos de Deus, apoio sincero, a amizade e a oração para sua viagem. "Eu só esperava para compartilhar a oração da noite, uma bênção e jantar, mas a tarde era melhor do que eu poderia ter imaginado", disse ela.
Depois de dirigir para apresentar uma bênção especial, Padre John deu à Irmã Maria Celeste um cruz missionária. "Eu sou muito grato, mas agora eu tenho mais uma cruz para carregar!", Brincou.
"Eu fui às lágrimas quando o padre John e eu levamos o ícone do Perpétuo Socorro em torno da capela para que todos venerassem. Eu dei-lhes um pequeno presente como símbolo da minha gratidão, e agradeceu a Deus por toda a bela tarde cheia de graça e a noite maravilhosa", disse ela.

Irmã Maria Celeste considera Liguori  como sua casa. Ela chegou em 1993, e depois de 18 anos foi uma das quatro Redentoristas enviados para estabelecer a nova fundação na Tailândia, em 2011. O acordo com o mosteiro da Austrália é de quatro anos, mas disse: "Tudo o que Deus quiser. Eu farei todo o possível com a ajuda e orações de todas as pessoas que se comprometeram recordarem de mim, como eu os recordo em minhas orações diárias.




John P. Schmidt e Irmã Maria Celeste apresentado o ícone do Perpétuo Socorro irmão Paul Yasenak à veneração durante a cerimônia de entrega.



por Kristine Stremel