sábado, 29 de novembro de 2025

DEZ DIAS DE EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS, DADOS À ALMA PELO SENHOR, NA CLAREZA DA PUREZA DO SEU DIVINO ESPÍRITO, REGISTRADOS SEGUNDO O HABITUAL TEMA DE COLÓQUIO COM O ESPOSO AMADO

 Na preparação para o natal, aproveitemos para beber da espiritualidade Crostarosiana:


Esposa[1]:
Meu Dileto, faço-vos uma renúncia total de toda a minha alma, entregando-a inteiramente em vossas benditas mãos. Ensinai-me e conduzi-me nestes dias dos santos exercícios pelos caminhos que vos são agradáveis.

Esposo:
Filha, eu te conduzirei, nestes dias, ao lugar onde quero que tu permaneças, e te disporei, a cada hora, aquilo que quero que faças.
Pelo ato puro da claridade, entra no meu próprio Coração, neste primeiro dia, para nele habitares para sempre. Entra em mim, na alegria do teu Deus, na criação de todas as coisas criadas.
E assim iniciarás este primeiro dia na alegria e no deleite que o Pai tinha em mim, seu Verbo. Seja para ti um princípio e um instante sempre novos, assim como eu sou, na eternidade, instante e princípio sem princípio de eternidade.
Assim, em toda criatura criada, eu sou princípio: nos anjos, nos homens racionais e nas criaturas sensíveis e insensíveis. Sou completamente princípio não originado, para ti alegria eterna e delícia de mim mesmo.

Esposa:
Ó alegria inexplicável, quem poderá dizer a plenitude do bem e do contentamento que dais ao meu coração? Não sei, nem posso expressar.
No vosso amor, o meu espírito vos louva com eterna louvação em vós mesmos, em vossa imensidade, e o meu gozo é a vossa alegria. Avança o aniquilamento do meu espírito no meu próprio nada, como alguém que não é, diante da claridade da luz da vossa eternidade, que me ilumina.

Esta manhã fizestes ressoar no meu espírito a voz sonora da pureza, dizendo-me: “Entra no coração dos querubins!”
E, naquele instante, transportastes o meu espírito para aquele coração angélico.
No vosso Verbo, percebi o ato puro da eternidade. Ali contemplei as duas naturezas — divina e humana — unidas por um ato de onipotência.
Na vossa divindade, ó eterno Verbo, revelastes a mim a causa da eternidade bem-aventurada e sem princípio. Ali, com uma voz substancial, no vosso ato puríssimo, destes a entender, sem palavras, o ato puro e divino da vossa essência no Pai divino e do Pai em vós:
como bem-aventurança do Pai, sabedoria do Pai, luz infinita, onipotência, riqueza, glória, beleza, misericórdia, verdade, justiça, santidade, espelho puríssimo das suas divinas perfeições, paz, centro, júbilo, solidão, unidade de todo gênero de bondade e felicidade no Pai, ápice de todo bem, princípio de todas as obras e maravilhas da criação, redenção e conservação de todas as criaturas, no ato puro da eternidade.

Vós sois luz e glória dos anjos, beleza e formosura do céu empíreo, e fortaleza invencível da virtude de Deus. Ó meu Jesus, Verbo do Pai, vós sois a alegria dos justos. Sois o domicílio de Deus, sois plenitude pleníssima de Deus.
Na vossa infinidade, no puro ato da eternidade — embora sejais o Bem por excelência — sois ao mesmo tempo o mais distinto e particular em cada perfeição distinta. Num só instante encerrastes esse ato puro de bem-aventurança: instante que sempre começa, sem jamais ter princípio; sempre novo, sem jamais ter fim. Nesse instante feliz está a verdadeira bem-aventurança eterna do vosso divino ser, ó eterno Verbo, no qual o céu inteiro é feliz.

Meu Dileto Jesus, até aqui falamos de vossa natureza divina; agora falaremos também de vossa humanidade, para reconhecer que tesouro imenso vós sois. Somente um homem contempla o Pai divino com complacência infinita — e esse sois vós, meu Jesus, alegria amabilíssima e tesouro sem preço. Em vós ele ama todos os homens.
Eu vos contemplo como Cabeça de todos os homens. A vós é dada a graça santificante por todos. Vós invocais e alcançais graças por todos; vós satisfazeis as dívidas de todos; vós amais a Deus por todos.
Vós desprezastes o mundo e as coisas da terra por todos, como era conveniente — assim também as honras e as riquezas. Vós sois o dispensador de todas as graças e dos dons sobrenaturais.
Vós dais a verdadeira sabedoria aos nossos entendimentos para compreender as realidades sobrenaturais da fé. Vós distribuís aos homens uma porção da onipotência divina — aos justos, no poder de operar milagres.
Por vós são comunicados aos eleitos e à Igreja dos fiéis os dons do Espírito Santo. Vós sois o mestre e o modelo de todas as virtudes morais.
Vós sois um ato de justiça para iluminar todo homem peregrino na compreensão das verdades eternas. Vós despertai a memória dos bens eternos. Vós acendeis na vontade a chama dos atos puros da caridade.
Vós unis a alma à divindade mediante aquela união hipostática que realizastes, unindo a natureza humana à Pessoa do Verbo, elevando assim a nossa natureza a tão alta dignidade.

Oh, que direi de vós, meu Jesus? E quando me será concedido abraçar-vos e gozar-vos abertamente? Oh rosto de beleza infinita, quando vos verei? Na bondade não há quem se vos iguale; na virtude não tendes termo; na misericórdia sois imenso como o mar; na vossa sabedoria e providência sois insondável.
Para mim, ao comparar tudo convosco, toda coisa me parece estranha; parece-me que todas as coisas deste mundo são feias. Ai! Eu desejo que caia logo o saco deste meu pobre corpo, para não vos perder nunca mais de vista, meu único bem e único tesouro.
Ó meu Dileto, ajudai-me a dar ao vosso Pai divino um louvor e ação de graças infinitos, que não se terminem com a vida; pelo contrário, que com a minha morte comecem a ser maiores e mais perfeitos.
Ai, meu bem, convosco eu não temo qualquer sofrimento do mundo, meu Jesus, nem sequer as minhas próprias misérias. Todo o meu temor é perder-vos.
Oh, como sois belo e doce! Sopro suave de divindade respira a vossa boca no meu espírito, chama do Espírito Santo. Dizei-me, minha alegria, o que quereis que eu faça em todo tempo para vos dar orgulho. Comandai ao meu coração, já que ele não deseja outra coisa senão cumprir a vossa vontade.

 



[1] Para tornar a "conversa" mais evidente, Crostarosa escreve noivo e noiva em destaque, acrescentando o sinal de igual (=); nesta edição, eles aparecem em negrito e itálico.