sexta-feira, 1 de junho de 2018

A mãe de uma multidão...



Certa manhã, após a comunhão.... com minha alma toda absorta em silêncio, o Senhor me disse: “Desejo que você seja a mãe de uma multidão de almas, que quero salvar por seu intermédio...”(L, cap. XIV)

Para Maria Celeste, a eucaristia não é só o sacramento pelo qual Jesus, como no Lava-pés, lhe oferece o perdão de seus pecados: “Eu lavarei e purificarei você de todas as suas faltas”. É, sobretudo, o sacramento dos esponsais com o Cristo, de sua união à paixão e ressurreição do Salvador, como também o sacramento do Pentecostes, isto é, da fecundidade apostólica, da maternidade espiritual. “Quero que você seja a mãe de uma multidão. ” Essas palavras de Jesus após a comunhão marcaram-na por toda sua vida. Um século depois, Teresa do Menino Jesus expressará semelhante convicção na sua autobiografia (história de uma alma): “ser tua esposa, ó Jesus... ser, pela minha união contigo, a mãe das almas”(oeuvres completes, Cerf, 1922, p. 224).

Em seu diálogo com Maria Celeste, Cristo assegura-lhe que ela colaborará nessa obra do Salvador, que será um sucesso: “uma multidão! ” Ela se sente animada, mas sabe muito bem que será doloroso esse parto. Doloroso, mas fecundo, pois não será apenas o resultado de seus esforços, mas também o fruto do trabalho apostólico de sua comunidade, da Igreja, e sobretudo do próprio Senhor, que está presente nela e com ela trabalha.
Jesus, uma manhã, convida-a a se deixar abrasar pelo fogo do amor que o consome por todas as almas que ele quer salvar:

“Esta manhã, desejei você de maneira especial em meu coração. Esperei-a com impaciência, para que, em mim, você espose todas as almas, aquelas que fazem parte da Igreja e aquelas que ainda não estão no meu rebanho. Quero que tenha por elas o mesmo amor pelo qual eu as amo apaixonadamente. Quando estava no mundo, eu pensava mais nelas que em mim mesmo. Assim, não pense mais em você, mas na salvação dessas almas que eu tanto amo” (L, Segundo Diálogo)

Evocando a imagem do golfinho, Jesus insiste nesse ponto:

“Você é para mim como o golfinho, esse amigo do pescador que o acompanha sempre e atrai outros peixes para suas redes. Também você, amiga dileta, esteja sempre comigo com amorosa simpatia e conduza as almas para as redes da minha graça” (L, Segundo Diálogo).

Maria Celeste não era senão um com seu Senhor. Sua comunhão não se separa de sua missão. E sua missão pessoal é a fundação de um novo instituto religioso. Essa fundação aconteceu em Scala, a 13 de maio de 1731, num dia de Pentecostes. Depois do fracasso de Scala, é numa segunda-feira de Pentecostes, em 25 de maio de 1733, que começa uma nova etapa dessa fundação; e mais uma vez no dia de Pentecostes só em 1738, em Foggia, Maria Celeste conhecerá a felicidade de uma fundação definitiva.
O lema escolhido, desde a origem, para os redentoristas e as redentoristas: “Copiosa apud eum redemptio- Com ele (Jesus) é abundante a redenção”, enaltece o arroubo missionário e a fé no futuro. Dessa forma, numa época em que se pregava frequentemente “o pequeno número dos eleitos”, Maria Celeste e Afonso estavam convencidos de que a salvação trazida por Jesus não estava fadada a um fracasso, mas a um sucesso extraordinário. Inimaginável.

E nós, hoje?

Quando nós rezamos, e sobretudo quando participamos da eucaristia, somos conscientes de que nossa oração é a principal fonte de nosso apostolado? É por isso que é preciso “pedir ao Senhor da messe”(cf. Mt 9, 30; Lc 10, 2) para que haja operários e operárias para a colheita.
Temos perfeita compreensão de que, se somos cristãos, não é para buscar a nossa salvação, mas para primeiro salvar os homens e mulheres de nosso tempo, na comunidade da Igreja, isso é, com Jesus Salvador?
Quando compreenderemos que é o Senhor o principal obreiro de nosso apostolado? E que nós, nós não somos senão a terra que recebe a semente, mas uma terra de acolhimento, indispensável?
A nós compete, pois, aceitar servir, cooperar generosamente, alegremente, como Maria Celeste, que foi a “a mãe de uma multidão de almas”, para seu tempo e para o futuro.


𝓞𝓻𝓮𝓶𝓸𝓼 𝓬𝓸𝓶 𝓜𝓪𝓻𝓲𝓪 𝓒𝓮𝓵𝓮𝓼𝓽𝓮

Ò divino Pai...
Tua palavra,
Como uma flecha de fogo,
Transpassa minha alma
Para fazê-la desfalecer todos os dias de minha vida
Em teu divino amor!
Tu me dizes que me queres como ardente
Tocha
A brilhar sempre diante de ti
Para iluminar muitas almas .
Como, porém, eu poderia,
Sendo que para mim mesma não sou senão
Trevas?
Serei tocha e até o sol,
Se permaneceres sempre unido a meu coração.
Eu te suplico,
Por tua divina misericórdia,
Que assim seja (ES, Huitième jour)


sexta-feira, 11 de maio de 2018

𝕽𝖊𝖈𝖊𝖇𝖆 𝖒𝖊𝖚 𝖈𝖔𝖗𝖆çã𝖔 ...







Receba no seu o meu coração, para sempre o amar como a seu próprio coração, para ali ter guardadas todas as almas que são minhas pelos laços da caridade. Que especialmente as almas desta comunidade em que você vive sejam suas queridas esposas. Ame-as, tome a peito seu bem espiritual. Dou-as a você, minha bem-amada, a elas que são minhas e suas esposas. De hoje em diante, você as amará em mim e, a mim, nelas (L, Segundo Diálogo)

Receba meu coração... Nessa época, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus desenvolvia-se sobretudo na Europa, um pouco em reação á indiferença do jansenismo e à dureza do rigorismo. Essa devoção influenciou Maria Celeste. Seu amigo afonso foi um ardente promotor dela: no seu livrinho “Visitas ao Santíssimo Sacramento”(que ainda em vida de Afonso alcançará mais de quarenta edições), ele dedica várias “visitas” ao Sagrado Coração. Esse livro esteve nas mãos de Maria Celeste. Para Afonso, essa devoção popular não é um convite a declarações sentimentais, e sim à descoberta dessa realidade comovedora, especialmente na hora da comunhão: entrar em comunhão com Deus Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Maria Celeste fez a experiência disso de maneira extraordinária, como o testemunha esta conversa com o senhor:

Eu me senti que colocavas teu coração no meu peito, e que o meu coração se derretia como cera no teu. Eu ouvia tão docemente os batimentos de teu coração que me desfazia de amor... Língua humana nenhuma o saberá descrever. Ouvia ali baterem os corações dos que te amam, e de teu divino coração estavam prisioneiras todas as almas criadas e remidas. Com elas, estava meu coração no teu (L, Segundo Diálogo).

Com renovada alegria, Maria Celeste declara então:

Tú és minha alegria, ó coração daquele que me ama! Eis que, no meu peito, no lugar do meu coração, encontro o teu. Como está feliz minha alma por essa troca, ó meu Rei! Exulto de amor por isso (L, Segundo Diálogo)

Jesus prossegue suas confidências a esse respeito, lembrando-lhe que o seu coração é traspassado, um coração aberto, um coração acolhedor de todos aqueles e aquelas que aceitam ser amados por ele:

Meu divino coração é seu centro: veja que imenso bem há para você nessa morada. Não deixe esta cela preparada para você. Com a cruz escancarei a porta para você, e desde então você pôde entrar em meu coração. Aqui terá toda a felicidade do tempo e da eternidade. Nas angústias desta vida, aqui encontrará paz, nas aflições e perseguições, refúgio, e alívio nas tentações e desolações. Aqui você encontrará os meus e os seus amigos, sempre que quiser consolar-se e gozar de sua companhia e da doce convivência de meus santos, sem intromissão de vozes estranhas, com aquele repouso que não se pode encontrar no mundo nem nos bens desta terra. No meu coração você encontrará aquele bem infinito que a inteligência humana não é capaz de conceber (L, Segundo Diálogo).

Depois de convidar Maria Celeste a colocar o coração dele no centro de sua vida, Jesus revela-lhe um segredo: seu coração, transbordante de amor; trespassado por amor, é o coração de Deus Pai:

Ensinando você a ser mansa e humilde de coração, eu quis revelar um segredo muito profundo: sou eu o coração do Pai, que me enviou ao mundo para comunicar às suas criaturas a verdade sobre ele mesmo. Recorde o que eu disse nos meus evangelhos: “Tudo o que ouvi do Pai, eu vos dei a conhecer”(Jo 15, 15). Isso significa que, nos evangelhos, estão contidos todos os mistérios de minha divindade (L, Solilóquio Diálogo).

De fato, o coração de Jesus é a fonte de todo amor, de toda vida, dessa vida divina em que se inflama e se consome Maria Celeste. Entretanto, o amor do coração de Jesus não é um convite a se trancar num amor só a dois, mas a se abrir largamente num amor sem fronteiras, principalmente com as irmãs de sua comunidade:

Você olhará para o próximo com o mesmo amor com que eu olhava para meus apóstolos e discípulos. Com o mesmo olhar de amor, verá as companheiras com quem vive em comunidade. Terá diante de suas fraquezas a mesma piedade e compaixão que eu. Você as consolará em suas angustias com a mesma caridade minha. E, com a mesma doçura minha, a elas falará das coisas do Reino eterno. É em união com os meus sofrimentos que você suportará os altos e baixos de sua natureza e de seu caráter. Jamais use com elas de palavras violentas, em qualquer situação que seja.... Que suas palavras sejam sempre doces e amorosas! (F-M, n. 132, Entretiens IX)

O que é mais que evidente é que Maria Celeste é apaixonada por Jesus. Ela descobriu um Deus que pensa nela. Pessoalmente. Um Deus que lhe perdoa todos os pecados. Definitivamente. Um Deus que a ama. Apaixonadamente, a ponto de ter ciúmes dela, no sentido bíblico do termo, quer dizer: amante sem medida, que respeita, todavia, a liberdade do outro:

Deus eterno e de infinita caridade, quem pode contar as misericórdias sem fim que tiveste para com esta miserável criatura, que tantas vezes te ofendeu? E tu, amor de minha alma, tu jamais deixaste de amá-la, de lhe conceder teus benefícios e de estar junto dela, para que não se afastasse de ti, fonte de água viva. Com ciúmes velavas por ela e foste uma luz para meus pés, para que não errasse o caminho.... Não havia hora nem tempo algum em que não te via, com um olhar puro e espiritual, montando guarda junto de mim. Por isso, inflamava-se minha vontade pela tão encantadora visão de tua presença, porque me olhavas sempre com dulcíssimo amor e olhos serenos e amorosos... Convidando-me a te amar, dirigias-te a mim com doces palavras, como por exemplo: “Eu sou ciumento de seu coração” (L, cap. VI)

A essa declaração de amor do Senhor, Maria Celeste responde com também inflamada declaração:

Não consigo me convencer de que outro coração te queira maior bem do que eu! Todos os meus suspiros, minhas respirações todas voam para ti, para te ferir de amor, como tu me feres com teu amor. Ó joia de meu coração... meu Bem-amado perfeitíssimo, como me és caro e amável! Jamais saberia explicar o que tu és. Com razão, tantos corações amorosos morreram de puro amor por ti, sobretudo o coração de tua querida Mãe, que, mais que qualquer outra criatura, possuía teus divinos conhecimentos! (L, Solilóquio Diálogo).


E nós, hoje?

Estamos convencidos de que somos amados pessoalmente pelo Senhor, ao qual dirigimos nossa oração? Antes da criação do mundo, ele já pensava em nós e nos amava. Nem hoje ninguém nos ama tanto quanto ele. Hoje e sempre ninguém quer tanto quanto ele nosso bem. Ora, não há ninguém mais humilde que Deus. Ele nos respeita, não nos obriga a nada. Ele quer o nosso bem e, com nossa livre colaboração, o bem de todos. Será que cremos nesse amor?
Antes: pensamos nós nesse amor, nesse coração que pulsa junto do nosso e que gostaria de nos arrebatar na espiral de seu amor?
Temos verdadeiramente o cuidado de acolher esse amor e de partilhá-lo com os outros? Em família, em comunidade, em Igreja?
Preocupamo-nos com o bem dos outros? Com seu bem material e seu bem espiritual?
  

Oremos com Maria Celeste

Querido Bem de minha alma,
fogo devorador e veemente experiência,
ao receber teu coração, que novamente me
deste,
Posso dizer, em toda a verdade,
que agora és tu o meu coração,
ó meu bem.
E como te contentas com tão pobre morada,
ó meu Senhor?
Outra coisa não posso fazer
senão me entregar a ti
numa entrega irrevogável (L, Sétimo Diálogo).



terça-feira, 10 de abril de 2018

Benção e inauguração do Novo mosteiro Redentorista de Huambo

Com alegria postamos algumas fotos da benção e inauguração do Novo Mosteiro de Huambo na Angola. Essa nova fundação só foi possível, graças a generosidade da comunidade de Diabó e de Kiri de Burkina Fasso. É importante destacar que dessa fundação, umas das irmãs é francesa e ajudou na fundação da Ordem em solo Africano. Redemos graças a Deus por tamanha graça e pedimos que Ele envie muitas  santas vocações.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

O nome de Jesus...


Eu me sentia com o coração tomado por uma ferida divina. Sobretudo quando ouvia dentro de mim e me sentia envolta por um recolhimento interior que me fazia fugir de qualquer conversa... E tu, meu amor, amante Verbo, deliciosamente me nutrias com poucas e breves palavras de amor, fazendo-me sentir tua presença em meu coração, do qual fizeste tua morada (L, cap. X)



O nome de Jesus toca por inteiro o coração de Maria Celeste. Compreende-se melhor isso quando se recorda a etimologia dessa palavra: “Jesus” vem da palavra hebraica “Yeshouah”, que significa: “Javé salva”, ou simplificando: “Salvador”. Assim é que, para traduzir essa palavra, pode-se escolher entre dois termos: “Salvador” ou “Jesus”. “Jesus” é a tradução sonora de “Yeshouah”, enquanto “Salvador” é seu significado. Descobre-se a afeição de Maria Celeste por essa palavra, quando se olha para o primeiro nome dado por ela a seu Instituto: Ordem do Santíssimo Salvador e Congregação do Santíssimo Salvador.
“Salvador”, palavra cheia de esperança. Foi o nome escolhido pelo Pai para seu Filho, o Verbo feito carne no seio da Virgem Maria. O anjo enviado por Deus revela a José: “Não temas receber Maria, tua esposa: o menino gerado vem do Espírito Santo; ela dará ao mundo um filho, a quem darás o nome de Jesus”(Mt 1, 20-21).
Eis porque, aos 20 de janeiro de 1732, na festa do Nome de Jesus, Maria Celeste, na hora da comunhão, deixa explodir sua alegria:

Neste dia em que a Igreja celebra teu santo e adorável nome, concedeste-me, ó meu Jesus, tão grande efusão de amor que me parecia estar minha alma inteiramente consumida por esse nome tão belo, tão doce, tão caro, tão agradável, tão grande, tão amável, tão admirável, tão divino...(L, Solilóquio Diálogo).

No magnificat, a Virgem Maria canta, não em latim nem em grego, mas na língua irmã do hebraico, o aramaico: “minha alma engradece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu ‘Yeshouah’, isto é, meu ‘salvador’, meu ‘Jesus’”. Pode-se, pois, traduzir: “Exulta meu espírito em Deus, meu Jesus”. E então se compreende a emoção de Maria Celeste e de muitos místicos, quando pronunciam ou ouvem esse nome Jesus. Para todos eles, esse nome não evoca apenas uma ideia. Menos ainda uma imagem, mas uma pessoa viva, presente, seu melhor amigo, o Amigo divino, o próprio Jesus, o Ressuscitado que leva as marcas dos cravos e que se dirige a cada um de nós como a Maria Madalena na manhã de Páscoa:

“Acontece muitas vezes a uma alma, ocupada em afazeres materiais, ou mesmo lendo ou rezando, ouvir por acaso pronunciar o nome de Jesus. Ela se sente, de repente, como que transpassada por um dardo amoroso tão forte que lhe deixa suspensa por um tempo a respiração, de forma que não é possível descobrir o que é dor e o que é amor, ao mesmo tempo. Cehga ao mais profundo das entranhas, num movimento instantâneo, e inflama tão vivamente em todo o ser o fogo da caridade, a ponto de parecer que tudo é dor e amor dulcíssimo. A alma então recolhe e se concentra inteira em Deus, e permanece numa oração a que se pode chamar de imersão em Deus” (L, Degrau Oitavo)

Dessa maneira, o nome de Jesus leva Maria Celeste não só ao encontro de Jesus, mas ao encontro do Pai de Jesus, na luz do Espírito Santo.

E nós, hoje?

Na escola de Maria Celeste, compreendemos enfim que para orar é preciso ser dois: aquele que vê e aquele que se deixa ver, aquele que ouve e aquele que é ouvido, aquele que ama e aquele que é amado?
Como pronunciamos o nome de Jesus? É uma formula maquinal, usada por hábito? Ou o nome de um amigo que está ao nosso lado e que, ao preço da própria vida, tudo faz para nos salvar, perdoando-nos e nos chamando a cooperar com ele na salvação do mundo? Nome que nos transforma e nos convida, agora, a partilhar a ceia da amizade na eucaristia, à espera do festim do Reino?
Procuramos rezar, com Maria, este verso do Magnificat: “Exulta meu espírito em Deus, meu Jesus”?

Oremos com Maria Celeste

Ó nome santíssimo de meu Jesus que eu adoro...
Nome tão belo, tão doce, tão caro,
Tão agradável, tão grande, tão rico, tão amável,
Tão admirável, tão divino!
Deixa-me, pois, agora exprimir e exalar
O amor de meu coração para contigo,
Com toda liberdade e sem reserva,
Pois eu falo contigo,
A ti que és todo o meu amor,
Minha vida, meu coração e minha própria alma.
Dize-me agora, meu Bem-amado,
Porque fazes assim derreter meu coração?
Meu coração está tomado de fogo.
Só de ouvir pronunciar teu nime,
Dir-se-ia que ele está mil vezes traspassado
E ferido,
Como por uma flecha,
Por esse nome tão belo! (F-M, n. 26, Entretiens IX)


sábado, 3 de março de 2018

Trindade Bem-Aventurada...


A alma entra no Verbo-Deus, e, ao mesmo tempo, todas as suas potências entram na substância pura da Trindade Bem-aventurada. É ali que ela se encontra entre o Pai e o Filho, no sopro do Espírito Santo, e perde todo seu conhecimento criado. Num ato de pura verdade, ela arde no fogo da caridade, que é chama de vida eterna...
Nesse estado, outra coisa não se faz senão amar com aquele amor com o qual o Pai ama o Verbo no Espírito Santo, e com o qual o verbo ama seu divino Pai em sua infinita felicidade (L, Degrau Décimo).





Para Maria Celeste, Deus é fogo. Mas fogo semelhante à sarça ardente vista por Moisés, fogo que queima eternamente sem se consumir. (cf. Êx 3,2)Assim, a Trindade arde no fogo do amor, fogo de bondade e de alegria, que é eterno e fonte de bem para todos os que crêem nesse Deus-amor abrasado do desejo de se unir para sempre a cada uma e cada um de nós:


Ah! Meu Senhor, que língua mortal pode explicar o bem que realiza numa alma cristã o estado de verdadeira união com Deus neste divino Sacramento do altar. pelo qual obtém a transformação em Deus e recebe esse puro sopro divino que existe entre o Pai e o Verbo, seu Filho, com o Espírito Santo...Nutrindo-se da carne do homem-Deus, a alma-esposa vem a participar, mediante a união hipostática que une Jesus ao Verbo, da admirável união com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que goza a alma santíssima de Jesus, do qual todos somos membros. União real esta, que se apóia nas palavras do próprio Jesus: "Quem come de minha carne vive por mim!(Jo 6,57)(Vm, n. 23, p. 5, Jardin intérieur, 4 juin).







Quem come de minha carne vive por mim!... Maria Celeste não cessa de aprofundar essa palavra de Jesus. Palavra extraordinária. Ela lhe queima o coração. E, maravilhada, descobre na hora da comunhão os arroubos de amor e de alegria que unem as três Pessoas da Bem-aventurada Trindade, entre elas, e que a unem a elas por meio de Jesus:


Quando te contemplo, meu Jesus, em ti vejo brilhar todas as belezas e todos os divinos atributos do Ser substancial, a Santíssima Trindade. Ali encontro a felicidade eterna que torna o meu Deus bem-aventurado em si mesmo; ali encontro o amor com o qual amas todas as criaturas em infinito arrebatamento; ali encontro todos os corações amantes que existiram, existem e que existirão; ali encontro todos os bem-aventurados do paraíso e todos os corações que em ti repousam em uma vida de amor que os cumula de felicidade. Ali encontro toda a criação do céu e da terra com a multidão das espécies criadas; ali encontro a santidade dos santos...tudo isso o Pai depositou em ti, meu Amor, para que sejas de tudo o único distribuidor. Em tua Majestade, encontro preservados todos os seres, em perfeita ordem. Todos esses bens estão depositados na Arca de tua santa humanidade e nela transparecem, como por um cristal puríssimo, todos os tesouros e belezas com os quais, por uma graça superabundante, essa puríssima humanidade foi enriquecida pelo Pai. Ela não tem nódoa nem mancha, e eu a comparo a um límpido cristal...Meu coração está arrebatado de amor por ela e não pode se recusar a amar esse Sol na Arca e essa Arca que envolve o Sol (L, Solilóquio Diálogo)

Nada de sábias considerações sobre o mistério da Trindade. Maria Celeste delicia-se com o amor dos três. Para ela, o Cristo está sempre no centro de suas atenções, mas tem presente ao mesmo tempo sua humanidade e sua divindade, sem jamais as separar. A humanidade do Cristo é “a porta aberta para entrar em Deus”. Disso fazia inesquecível experiência na hora da comunhão:

As três pessoas divinas mostraram-se a mim em meu espírito. Deus Pai me recebia como sua filha para sempre e me dava uma veste muito preciosa, que me recobria toda inteira. Essa veste era sua divina vontade, com a qual ele quer que eu fique sempre revestida, como verdadeira filha sua.
Depois o Verbo, o Deus de Amor, com doces e amorosas palavras, declarou-me sua esposa para sempre e me entregou uma belíssima aliança, como também uma pequena cruz de ouro, toda incrustada de pedras preciosas e de diamantes, muito adornada e muito bela, mais que se consiga dizer...Essa aliança significava a fidelidade que, em todas as minhas ações, até a morte eu lhe devo.
A cruz tinha três grandes diamantes e era de ouro tão brilhante que espargia ofuscantes raios de luz. Algumas pedras de rubi também espargiam raios e faiscavam como fogo. Era o Espírito Santo que me dava esses adereços e que realizava tudo isso (F-M, n. 6, entretiens IX)

Ao longo de toda a vida, Maria Celeste viveu uma progressiva interiorização na Bem-aventurada Trindade, porque o Deus que ela ama apaixonadamente não é um vago “Bom Deus” solitário, o “Celibatário dos mundos”, mas um Deus “comunhão de amor” entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Ela não so admira essa comunhão de amor, mas a compartilha. E isso se realiza sobretudo na hora da comunhão, momento em que, um dia, ouve o Pai lhe dizer: “Eu criei você de minha substância, por um amor de eleição”. Eis como ela se exprime:
“Estas palavras, ó divino Pai, tu me disseste hoje, após a santa comunhão. Foi quando vi minha vida no teu Verbo, que é tua, e minha substância eterna de felicidade e amor. E acrescentaste esta outra palavra substancial: ” Eu sou teu céu! ”” (Es, huitième jour)

E nós hoje?

Será que a Bem-aventurada Trindade é para nós um problema intelectual, objeto de especulação, ou o maravilhoso encontro, especialmente na hora da eucaristia, com o Pai e o Filho, no Espírito Santo, no seio de sua comunhão de amor?
Estamos atentos em nos deixar conduzir pelo Cristo a esse encontro, conscientes de que ele está presente, não ao nosso lado, mas dentro de nós?
Estamos igualmente conscientes de que nos oferece partilhar com ele a verdadeira bondade, a bondade de Deus, bondade que jamais se apaga?
Estamos prontos a nos enveredar pelo caminho de amor traçado por Jesus: o caminho de páscoa que, pela morte na cruz, nos faz passar à alegria e à glória na vida eterna, em comunhão com Deus Pai, pelo Cristo, no Espírito Santo?


Oremos com Maria Celeste

Ó meu amor,
 eu me perco nesse imenso oceano de teu
amor infinito.
Ó pai de sinceridade e de verdade,
Supersubstancial e divino,
Por teu poder tu me transformas em Deus vivo.
E por tua pureza transformas minha carne maculada
Na pureza de tua carne imaculada.
Não somente a purificas do pecado,
Mas a nutres com tua vida de pureza.
De todos os grãos dispersos,
Que são as almas fiéis,
Tu fazes um só Pão
Assado ao fogo de tua divina caridade,
Na tua humanidade...
Em união de amor,
Eu vivo a vida de meu Deus
Por ti, que és a vida eterna

 (F-M, n. 76, Exercice d’amour pour chaque jour)


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Quando um Passarinho Voa...





Observe...Quando um passarinho voa, à medida que se eleva, ele entra num ar mais puro e está ao abrigo de predadores. Mais se eleva, mais fica em segurança. Assim a alma Cristã...Suba, pois, o quanto possível, para o ar puro e calmo de meu divino Ser. Ali gozará de delicioso silêncio e de grande segurança (L, Quarto Diálogo).

Maria Celeste não almeja a uma espiritualidade pela metade. Quando escreve a Regra para o Novo Instituto que o Senhor quer fundar, com ela e com seu amigo Afonso, ela convida suas Monjas não a se prenderem escrupulosamente a pequenas devoções ou a recitarem longas fórmulas prontas de oração, mas a se elevarem à contemplação do Deus de Jesus Cristo, Deus Pai em comunhão com o Filho, no Espírito Santo, a Santíssima Trindade. E mais: desdea primeira página, Maria Celeste evoca o projeto de Deus para o mundo, o "plano do Pai":

Eu tive o ardente desejo de dar ao mundo meu Espírito e de comunicá-lo a minhas criaturas dotadas de razão, para com elas e nelas viver até o fim dos tempos. No meu imenso amor, dei-lhes meu Filho único, e por ele lhes comuniquei  meu divino Espírito Consolador, para divinizá-los na vida, na justiça e na verdade, e a todos guardar em meu afeto, naquele que é o Filho do meu amor, o próprio Verbo (F-m, n. 1, Règle, but et Idée).


Eu lhes dei....comuniquei-lhes meu Espírito...para divinizá-los... O Deus de Maria Celeste é um Deus que toma a iniciativa. Ele é quem doa primeiro. Por quê? Para divinizar os seres humanos.
Este "plano do Pai" é uma idéia central em Maria Celeste. Ela segue o pensamento dos Padres da Igreja, como Irineu e Inácio de Antioquia, que repetiam: "Deus se fez homem, para que o homem pudesse tornar-se Deus". Por isso, sua espiritualidade é profundamente trinitária, ao mesmo tempo em que se mantém centrada no Cristo e seu mistério pascal. É, de fato, a partir do Cristo, Deus feito homem, morto no extremo de seu amor e ressuscitado, que o verdadeiro Deus se deixou ver. E ela volta frequentemente a esse tema em seus escritos:

Ò Amor, Verbo, Deus de meu coração! Sabendo que és a vida de todas as coisas que existem, como poderia eu explicar esse bem? És o ser e a vida de bondade no céu para todos os justos e todos os espíritos puríssimos do além, uma vez que é em ti que eles têm o existir, a vida e a luz da glória...
Olho o céu e contemplo as estrelas: és tu seu esplendor e sua beleza. É em ti que elas têm a vida e continuam a existir.
Olho o sol e a lua e vejo que és tu seu brilho e sua vida. Olho o mar: o bater das ondas, com seu brado sem palavras, ressoa como alegres vozes que ouço interiormente, pois que aí te manifestas, Verbo-Deus amor, como vida, sabedoria e seu ser.
Olho a terra, as plantas e as flores e as frutas...Sinto teu perfume, meu paladar degusta o sabor de doçuras eternas, porque és tu meu paladar e meu sabor, e és para mim um alimento mais doce que um favo de mel.
Todos os pássaros do céu alegram meus ouvidos com a doçura de seus suaves cantos, porque tu, Verbo de Deus, tu és como dulcíssima melodia no meio de todas as criaturas (S, pp. 254-255, jardin intèrieur, 10 janvier).


Verbo de Deus...Uma vez mais encontramos nessas linhas o eco do Evangelho de João, em que a palavra "Deus", como aliás em toda a Biblía, pode quase sempre ser completada pela palavra "Pai", pois ali representa uma pessoa divina distinta e não a natureza divina em sua generalidade: " No príncipio era o Verbo, a Palavra de Deus (o Pai), e o Verbo estava junto de Deus (o Pai), e o Verbo era Deus. Ele estava no principio junto de Deus (o Pai). Por ele tudo foi feito, e nada do que foi feito foi feito sem ele. Nele estava a vida..."(Jo 1, 1-5).
Este Filho do Pai, Maria Celeste o acolhe com alegria na hora da comunhão. É para ela o momento em que descobre que Jesus-hóstia lhe comunica o dom do Espírito Santo:

Nesta manhã, dia de pentecostes de 1738, pareceu-me, ó Verbo divino, que ao entrares em minha alma pela santa comunhão, teu divino Espírito ali penetrava como possantíssimo raio de luz.
Compreendi que em ti, Verbo do Pai, me era dado o Espírito da verdade. Eu o recebi em meu coração como uma seta de fogo, mas muito doce, que em mim consumia todas as minhas misérias e me fazia ver que eu era como uma criança de dois anos em teu coração. Ó meu Bem-amado, como poderia eu jamais saber explicar que tesouro inestimável, que riqueza sem limites, que bondade sem par és tu! (E, L'an 1738).


E nós hoje?



Quando oramos com as palavras do Pai nosso, será que pensamos nesse Deus Pai, que é amor? Que não é senão amor? É esse o Deus Pai que enviou seu Filho a esta terra para nos tornar possível descobrir seu amor e ver a Deus: "Quem me viu, viu o Pai"(Jo 14,9), dizia Jesus a Tomé,  incrédulo.
Será que pensamos no "plano do Pai"? Esse plano de salvação, de transformação da humanidade, sua eterna divinização de acordo com o modelo do Homem novo, o Cristo em sua glória de ressuscitado?
Quando dizemos "Pai nosso...seja feita a vossa vontade", será que pensamos em desgraças que podem advir sobre nós ou no grandioso plano do Pai sobre cada ser humano? Melhor: será que rezamos pelo triunfo de sua vontade amorosa em nós e ao nosso redor?
Por fim, quando recebemos a eucaristia, será que somos conscientes de que ela é um dom do Pai? Em seguida, será que acolhemos o dom do Filho, o Espírito Santo, que vem a nós como no dia de Pentecostes para nos inflamar no amor de Deus para com todos os homens?

Oremos com Maria Celeste


Pai eterno, meu Deus,
Verdade por essência, Santidade infinita,
mostra-me teu Filho,...
no qual estão todas as tuas complacências
e tua alegria eterna,
para que, por ele, eu te possua,
Pai santíssimo,
para que te ame com seu amor,
e ele te revele a mim,
para que eu te conheça na verdade
e te ame como o desejas e me pedes.
Luz inacessível,
na qual vejo todas as ciências sem erro,
Luz da qual as trevas não podem se aproximar
e que ilumina minha ignorância
Pai Santo,
dá-me este Filho, teu Verbo, que me resgatou...
Dá-me aquele que eu amo,

em quem espero e em quem eu vivo(E, L'an 1737)